Pedro Paulo Sammarco Antunes
01/10/2013
Vamos conhecer agora a trajetória de vida de uma militante.
Virginia Prince (1912 - 2009) foi uma grande ativista que lutou pelos direitos
de transgêneros nos EUA. Nascida em Los Angeles, recebeu o nome Arnold Lowman.
Começou a se transvestir com roupas consideradas femininas aos doze anos de
idade. Graduou-se em química em 1935. Fez mestrado em 1937 e doutorado em 1939
pela Universidade da Califórnia, ambos em farmacologia.
Casou-se com Dorothy Shepherd em 1941, teve um filho em
1946. Sua esposa não compreendia seu impulso por vestir-se de mulher. Procurou
um psiquiatra que a aconselhou a se divorciar, dizendo que o marido era
homossexual por causa do transvestismo. Em 1953 foi proibido pela justiça de
ver o filho e acusado de ser um mau pai por Dorothy.
Começou a trabalhar com indústria química associada a
cosméticos. Em 1955 começa a tomar hormônio feminino. Com o auxílio da mãe de
Arnold, casa-se com Doreen Skinner em 1956.
Ela havia sido filha de uma governanta que trabalhou para a família
Lowman. Doreen estava ciente que Arnold
gostava de se vestir de mulher. Aprendeu a compreender e conhecê-lo mais. Em
1960 Arnold funda uma revista cientifica voltada ao publico transgênero que se
chamava “Transvestia”.
Em 1962 conhece Robert Stoller (1921 – 2006), famoso médico
e especialista na área da sexualidade. Doreen, porém não aguenta a pressão de
ver Arnold vestido de mulher em algumas ocasiões. Ela pede o divórcio em 1966.
Na ocasião Arnold morava com o filho Bent, que começou a enfrentar problemas
com o uso de drogas. Com o divórcio, Doreen ficou com metade das ações da
indústria química de Arnold.
Em 1968, aos 56 anos de idade, já vivia o tempo todo vestida
inteiramente como mulher. O nome Virginia Prince já havia sido adotado desde
1941. Poucos anos antes, em 1961, sofreu processo criminal por enviar a revista
“Transvestia” por correio para alguns leitores. Foi alegado que Arnold, agora
Virginia, estava enviando material erótico. Porém a publicação da revista
continuou até a década de 1980. A partir da década de 1960 começou a trabalhar
intensamente com outros especialistas, dentre eles o doutor Harry Benjamin
(1885 – 1986) pelos direitos de transgêneros, além de ajudar a esclarecer sobre
tal “fenômeno” até sua morte, em 2009.
Virginia relata que começou a se vestir de mulher, pois
desenvolveu fetiche sexual por sapatos de saltos altos, seguido por
masturbação. Com o tempo foi descobrindo a “mulher interior” que habitava
dentro dela. Ao longo da vida desenvolveu pensamento acadêmico a respeito do
assunto. Fundou organizações para pessoas que se transvestiam (Docter, 2004).
Em seu artigo “Homosexuality, transvestism, and
transexuality: Reflections on their ethiology and differentiation” faz a
distinção entre homossexualidade (orientação sexual), transvestismo
(comportamento) e transexualidade (alteração do sexo genital com o objetivo de
alterar o gênero). Coloca que a orientação sexual não tem necessariamente uma
relação direta com a expressão de gênero. Virginia diz que ela mesma nunca se
interessou por homens (Prince, 2005a).
Em outro artigo, intitulado de “The expression of femininity
in the male” faz a diferenciação entre sexo e gênero. Ela defende que a
socialização impõe certa identificação de gênero correspondente ao sexo
biológico determinado. Com isso, todas as características consideradas do
gênero oposto deverão ser reprimidas. Para ela o transvestismo masculino é a
expressão da feminilidade suprimida em homens biológicos.
O verdadeiro travesti é o personificador daquilo que é
considerado feminino. O objetivo é atingir a expressão total da personalidade
independente do gênero. O ideal seria que todas as tarefas fossem desempenhadas
tanto por homens e mulheres. Normas de gênero limitam a manifestação da
criatividade das pessoas, pois elas não podem usar toda a sua criatividade.
Para a autora tais normas transformam a todos e meio-seres-humanos (Bruce,
2005).
Em “Sex versus Gender”, Prince defende que o gênero pode ser
performatizado independentemente do sexo anatômico. Ela diz que há grande
confusão entre órgão genital e sexo performatizado. O que se busca é a mudança
de gênero, não de sexo (órgão genital). Para ela o sexo está entre as pernas e
o gênero está entre as orelhas.
Ela acredita que no futuro as barreiras entre os gêneros
serão abolidas. As pessoas poderão transitar entre um e outro sem sofrerem
preconceito. Não haverá roupas específicas para homens e mulheres.
Classificações como transexuais, travestis, homossexuais, bissexuais e
heterossexuais se tornarão obsoletas, pois as pessoas serão classificadas
apenas como pessoas. Não haverá mais necessidade de tratá-las disso ou daquilo.
Aquilo que chamamos de androgenia será cada vez mais comum. Haverá uma fusão
completa entre o que chamamos de masculino e feminino (Prince, 2005b).
Já em “Transsexuals and Pseudotranssexuals”, Virginia
argumenta que não quis a cirurgia de redesignação sexual, pois seu caso tratava
de questões de gênero (psicossociais) e não de sexo (biológicas e
fisiológicas). A sociedade machista, polarizada e patriarcal é que associa
gênero, sexo e orientação sexual. Socialmente se entende que como o sexo é dado
ao nascer, o gênero também deve ser.
Prince argumenta que tanto homens quanto o restante da
sociedade considera se alguém é homem ou mulher por sua anatomia física. Tal
ideia também foi defendida por (Bento, 2008 e 2006). Ela critica transexuais
que buscam a cirurgia de redesignação sexual argumentando com sua ideia
clássica de que o gênero está entre as orelhas e não entre as pernas. É como se
a neovagina concedesse autorização social para que as transexuais vivessem o
estilo de vida que sempre quiseram (Prince, 2005c).
Em The “transcendents” or “trans” people, Virginia defende
que nos casamentos heterossexuais ao invés de duas pessoas inteiras se
acompanharem, há duas pessoas dependentes da parte suprimida da outra, buscando
assim, seu complemento. Para a autora, a mulher reconheceu antes do homem que
era preciso lutar pela integração e romper as categorias estanques de gênero.
Ela ainda argumenta que muitos problemas emocionais são advindos da criação e
educação para se adequar ao gênero imposto, de acordo com o genital de
nascimento (Prince, 2005d).
É interessante perceber que Virginia se tornou completamente
aquilo que se chama de transgênero por volta dos sessenta anos de idade, ou
seja, momento do processo de vida que chamamos de velhice. Foi militante, lutou
por direitos e escreveu artigos e livros científicos sobre o tema. Assim como
Virginia, outras pessoas consideradas transgêneros, se tornam militantes em
idade avançada.
Referências bibliográficas:
BRUCE, Virginia “The expression of femininity in the male”.
In: EKINS, Richard e KING, Dave Virginia Prince. Pioneer of transgendering.
Binghamton, New York: The Haworth Medical Press, p. 21- 27, 2005
DOCTER, Richard From man to woman. Northridge, California:
Docter Press, 2004
PRINCE, Virginia “Homosexuality, transvestism and
transsexuality: Reflections on their ethiology and differentiation”. In: EKINS,
Richard e KING, Dave Virginia Prince. Pioneer of transgendering. Binghamton,
New York: The Haworth Medical Press, p. 17-20, 2005a
PRINCE, Virginia “Sex versus Gender”. In: EKINS, Richard e
KING, Dave Virginia Prince. Pioneer of transgendering. Binghamton, New York:
The Haworth Medical Press, p. 29-32, 2005b
PRINCE, Virginia “Transsexuals and Pseudotranssexuals.” In:
EKINS, Richard e KING, Dave Virginia Prince. Pioneer of transgendering.
Binghamton, New York: The Haworth Medical Press, p. 33-37, 2005c
PRINCE, Virginia “The transcendents or trans people”. In:
EKINS, Richard e KING, Dave Virginia Prince. Pioneer of transgendering.
Binghamton, New York: The Haworth Medical Press, p. 39-46, 2005d
Disponível em
http://mixbrasil.uol.com.br/lifestyle/corpo/virginia-prince-foi-militante-trans-de-coragem-e-cheia-de-conhecimento-de-causa-.html.
Acesso em 05 out 2013.