Mobeen Azhar
7 de
janeiro, 2014
"Meu objetivo é ser o melhor garoto de programa do
mundo", disse Josh Brandon.
Nascido no País de Gales, ele tem cerca de 20 anos e vive em
Londres há quatro.
Inicialmente, seu plano era trabalhar como modelo e ficar
famoso.
Mas logo após chegar, ele começou a trabalhar na indústria
do sexo. Hoje, cobra por hora e oferece descontos a clientes leais: quem paga
por nove horas ganha a décima de graça.
"Tenho um esquema de reservas muito profissional e sou
muito discreto", disse.
A casa (e local de trabalho) de Brandon fica no Soho, o
bairro gay de Londres, colado ao West End - onde se concentram teatros, cinemas
e museus.
O aluguel altíssimo é, para ele, um investimento.
"Todo mundo conhece essa área e o fluxo de turistas é
constante", disse.
"Recebo muitos americanos e árabes. Conheci clientes
que estavam em visita a Londres e que agora contratam meus serviços em seus
países. Acabo de voltar de Munique, fui atender a um comerciante de armas. O
máximo que já ganhei em um mês foram US$ 49 mil (R$ 115mil) . Quando você
trabalha tão duro, o dinheiro pode ser bom".
Tommy, do Brasil
Russell Reeks administra a seção de anúncios classificados
da revista gay QX. Ele disse que Londres se tornou um polo internacional para
homens atuando na indústria do sexo.
"Hoje em dia, todas as nacionalidades do mundo estão
representadas nas nossas páginas", disse. "Há homens que vêm aqui ao
escritório direto do aeroporto, com malas e tudo. Alguns nem falam inglês, mas
querem que o anúncio seja providenciado antes de qualquer outra coisa, antes
até de acharem um lugar para ficar".
O brasileiro Tommy é um dos anunciantes. Ele ainda está
aprendendo a falar inglês mas isso não o impede de ganhar dinheiro.
"Trabalhar em bar não era bom - muito trabalho e pouco
dinheiro", disse o brasileiro. "Eu tinha um amigo do Brasil que já
estava trabalhando como acompanhante aqui em Londres e disse que eu devia
tentar".
"Eu coloquei o anúncio e meu telefone não parou mais de
tocar. Já vi dois clientes hoje e tenho mais dois hoje à noite. Cobro US$ 230
(R$ 544) por hora, então você pode fazer a conta. Se eu trabalho o fim de
semana inteiro, nem preciso trabalhar durante a semana".
"Meu primeiro dia foi difícil porque um cliente me
pediu para ter uma relação sexual sem proteção. Tive de dizer não. Levo minha
segurança muito a sério", diz Tommy.
Segundo Michael Underwood, enfermeiro de uma clínica de
saúde sexual londrina, o profissional que vende sexo em geral cuida de sua
saúde.
"Temos uma clínica especial para profissionais da indústria
do sexo", explicou. "Com frequência constatamos que eles usam
camisinha quando trabalham. Em Londres, houve um aumento nas infecções pelo
vírus HIV mas, de maneira geral, isso não está acontecendo entre os
acompanhantes. Se levam seu trabalho a sério, não vão ficar brincando com a
saúde", explicou Underwood.
Nico, da França
A imagem que se tem do profissional do sexo como vítima e da
indústria da prostituição como atividade associada a doenças e vício é algo que
pessoas como Brandon tentam transformar. Mas essa ideia reflete, no entanto, a
realidade vivida por muitos.
Nico tem 40 anos e começou a vender sexo aos 16. Ele se
mudou de sua cidade natal na região da Normandia, na França, para Paris. De lá,
seguiu para Londres, onde pretendia trabalhar como vendedor de lojas.
Durante um período, trabalhou vendendo roupas de marca em
uma loja no bairro chique de Knightsbridge. Mas a experiência não durou muito.
"Comecei a fazer sexo por dinheiro porque era um
adolescente muito nervoso. Não conseguia lidar com a vida normal. Não tinha
qualquer apoio da família, foi minha única opção. Passei a usar drogas para
esquecer o que estava fazendo com meu corpo. Eu tinha 16 e meus clientes eram,
na maioria, homens velhos. As drogas me ajudavam a me desligar."
Nico disse que ainda usa drogas como crack, por exemplo.
"Quando não tenho dinheiro para pagar pela droga, me
prostituo. A principal diferença entre Paris e Londres são as drogas. Em
Londres, você pode conseguir qualquer coisa. Tem sempre alguém querendo pagar
por sexo e um traficante querendo pegar seu dinheiro. Talvez um dia eu consiga
parar, mas não agora".
Prostituição e a Lei na Inglaterra
A lei na Inglaterra e País de Gales afirma que solicitar
sexo só constitui ofensa se isso acontecer na rua ou em locais públicos
Não é ilegal pagar por sexo se a transação for consensual e
se acontecer em lugar privado e entre dois adultos
Oferecer serviços sexuais por meio de anúncios na internet
não é crime
Entretanto, administrar bordéis é ilegal
Se há suspeitas de abuso ou exploração, a polícia tende a
agir de forma severa
Fonte: Comissário Assistente Armitt, representante da Acpo
(Association of Chief Police Officers)
Estigma
E se a experiência de Nico - rejeitado pela família, viciado
em drogas - parece confirmar os estereótipos normalmente associados à
prostituição, o depoimento de Brandon sugere que as coisas nem sempre são
assim.
"Usar drogas é antiprofissional," disse.
"Elas não se encaixam na minha marca nem nos meus objetivos".
Rejeição por parte da família também não precisa ser a
norma, disse.
"Quando ganhei o prêmio de Male Sex Worker of the Year
(prêmio anual para profissionais homens atuando na indústria do sexo), mandei
um torpedo para o meu pai. Ele respondeu: "Tenho orgulho de você,
filho".
O pai de Brandon, que trabalha para uma companhia de trens
no País de Gales, disse que aceita a profissão do filho mas não faz alarde
sobre o assunto. "Sei o que ele faz e não saio por aí falando sobre o
assunto. Não comento com os amigos. Digo a ele para tomar cuidado, mas o que
mais você pode fazer?"
Para Del Campbell, representante de uma ONG que faz campanha
sobre assuntos relacionados a HIV e AIDS - o Terence Higgins Trust - está
havendo uma mudança na forma como a sociedade encara o trabalho na indústria do
sexo.
"Existe menos estigma associado a homens que se
prostituem", disse Campbell. "É comum que mulheres sejam vistas como
vítimas, mas para alguns homens, trabalhar como garotos de programa é hoje um
trabalho normal. Você pode mencionar que é acompanhante durante um jantar e, em
certos círculos, ninguém vai se chocar".
Ele reconhece, no entanto, que algum estigma ainda existe.
"Depende muito do indivíduo", explicou. "De vez em quando
encontro alguns acompanhantes que dizem precisar escapar da vergonha de fazer sexo
por dinheiro. Sentem muita culpa por mentirem para suas famílias. Muitos dos
estrangeiros dizem para a família que estão trabalhado em um restaurante ou em
uma loja".
"Você tem de dizer a esses homens que esse trabalho
provavelmente não é para eles. Mas você também encontra pessoas que,
verdadeiramente, pensam que essa é uma profissão como qualquer outra. Nós
deveríamos apoiá-los. Estigma nunca ajuda".
Disponível em
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/01/140106_prostituicao_masculina_londres_mv.shtml.
Acesso em 07 jan 2014.