terça-feira, 9 de julho de 2013

Transexual mais poderosa do mundo deixa a chefia da Lancôme

Bárbara Ladeia
20/06/2013

A L’Oreal Paris deve amargar um longo período até encontrar um novo chefe para a Lancôme a altura de Youcef Nabi, transexual mais poderosa do mundo, que abandonou a presidência da marca no começo deste mês.

Conhecida por seu carisma, a argelina esteve na presidência da divisão de luxo da L’Oreal entre 2009 e começo de junho deste ano, quando anunciou sua renúncia do cargo. Entre 2006 e 2009, Nabi foi presidente da L’Oreal Paris, mas sua presença foi solicitada para recuperação da marca Lancôme - que passou a uma participação de 11% no mercado de cosméticos sob a sua gestão.

Formou-se aos 17 anos, quando se mudou para a frança para integrar a Escola Nacional de Agronomia. A especialização em marketing na Essec - tradicional escola de negócios francesa - a levou para este departamento na L'Oreal em 1994, onde suas ideias criativas e inovadoras a levaram rapidamente à diretoria de marketing da empresa.

Conflito

Embora Nabi tenha se retirado à francesa - não houve explicações oficiais do motivo da sua saída do cargo -, a revista francesa especializada Challenges aponta diferenças estratégicas entre Nabi e o novo presidente da divisão de luxo L’Oreal Paris,  Nicolas Hieronimus.

Segundo a publicação, Hieronimus é um sucessor potencial para Jean-Paul Agon, presidente da L'Oreal Paris.


Disponível em http://exame.abril.com.br/gestao/noticias/transsexual-mais-poderoso-do-mundo-deixa-a-chefia-da-lancome. Acesso em 29 jun 2013.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Brasil é um dos piores países para mulheres empreendedoras

Olhar Digital
28 de Junho de 2013

O Brasil está entre os piores países para mulheres empreendedoras. Um ranking da Dell, baseado em estudo da Global Entrepreneurship and Development Index (GEDI), mostra que, entre os 17 países analisados, o Brasil fica apenas em 14º.

O ranking dá uma pontuação de 0 a 100 para cada um dos países, levando em conta 30 indicadores. Segundo a Exame, os dados foram extraídos de diversas fontes, de modo a analisar quantidade de empreendedoras e programas de incentivo.

À frente do Brasil estão surpresas como Malásia, que tem uma economia minúscula em relação ao Brasil, e China, onde há um grande histórico de misoginia.

Os Estados Unidos lideram o ranking, com 76 pontos, seguido por Austrália, com 70, e Alemanha, com 63. Os piores países da lista para uma mulher empreendedora seriam Uganda e Índia, cada uma com 32 pontos.

Confira a lista:

1- Estados Unidos: 76
2- Austrália: 70
3- Alemanha: 63
4- França: 56
5- México: 55
6- Reino Unido: 51
7- África do Sul: 43
8- China: 41
9- Malásia: 40
10- Rússia: 40
11- Turquia: 40
12- Japão: 39
13- Marrocos: 38
14- Brasil: 36
15- Egito: 34
16- Índia: 32
17- Uganda: 32


Disponível em http://olhardigital.uol.com.br/produtos/digital_news/noticias/brasil-e-um-dos-piores-paises-para-mulheres-empreendedoras. Acesso em 29 jun 2013.

domingo, 7 de julho de 2013

Atraente, confiante, competente

Gisela G. S. Castro
Clarisse Setyon

Parece não ser possível hoje viver, assistir ou relatar fatos sem que estes sejam permeados pelos discursos da mídia. Nossa sociedade midiática é também conhecida como sociedade de consumo. As duas, inseparáveis, se retroalimentam. Impossível dissociá-las. Assim como o ato de se comunicar é condição inerente ao ser humano, também o são as práticas de consumo. Consumimos comunicação. Comunicamos ao consumir. Para Baccega (2009, p. 3) "consumir significa investir no pertencimento à sociedade, tornar-se vendável". Assim sendo o consumo é algo central na vida do sujeito que almeja viver em sociedade.

A aliança entre mídia e consumo colabora para incorporar o indivíduo à lógica do valor discriminatório do consumo. A identificação do indivíduo, além das dimensões fundamentais como nome, atividade ou profissão, incorpora também a tipologia de consumo a que tem acesso, bem como suas escolhas de bens e serviços. Everardo Rocha e Gisela Castro (2012, p. 169) ensinam que "o consumo constitui um código por meio do qual nós nos relacionamos com nossos pares e com o mundo a nossa volta".

Em clássico estudo sobre o consumo, Néstor Garcia Canclini (1999, p. 79) constata que "nas sociedades contemporâneas, boa parte da racionalidade das relações sociais se constrói, mais do que na luta pelos meios de produção, da disputa pela apropriação dos meios de distinção simbólica". Nesse processo, a apropriação desses símbolos visa proporcionar a tão desejada posição de destaque no mercado social. Ainda que o consumo seja comumente reduzido ao mero consumismo, sabemos que os processos de consumo são bastante mais complexos do que frutos de impulsos irrefreáveis deflagrados pelos incessantes apelos da publicidade.

A aliança entre mídia e consumo colabora para incorporar o indivíduo à lógica do valor discriminatório do consumo. A identificação do indivíduo, além das dimensões fundamentais como nome, atividade ou profissão, incorpora também o que se consome

Zygmunt Bauman (2008) destaca a transformação de pessoas em mercadorias no mundo atual. Segundo o autor, a sociedade contemporânea "se distingue por uma reconstrução das relações humanas a partir do padrão, e à semelhança, das relações entre os consumidores e os objetos de consumo" (p. 19). Parafraseando William Shakespeare, Bauman explica que "numa sociedade de consumidores, tornar-se uma mercadoria desejável e desejada é a matéria de que são feitos os sonhos e os contos de fadas" (p. 22).

Sem compartilhar da visão excessivamente sombria do sociólogo polonês, entendemos que o ambiente competitivo que vigora na esfera profissional se estende para o âmbito da vida pessoal. Assim como é exigido que o sujeito aprenda a se autogerir e que encontre as orientações para seu melhor desempenho no mundo corporativo, também na vida social suas escolhas, suas ações e possíveis consequências devem ser objeto de rigoroso e permanente escrutínio.

Coerente com o ideário neoliberal, a figura do sujeito empreendedor tornou-se modelo dominante nos mais diversos contextos. Constantes desafios e cobranças por desempenho nos confrontam a cada momento. Em oportuna reflexão sobre o imperativo da felicidade em nossos dias, João Freire Filho (2010, p. 23) constata "relevantes conexões entre os projetos individuais de cuidado pessoal e de bem-estar subjetivo e os princípios da governabilidade neoliberal".

O sujeito empreendedor não obtém sucesso por mero acaso. Ele precisa ser, antes de tudo, alguém que está disposto a arriscar. Em uma sociedade regida pela incerteza e pela competição constante, a capacidade de enfrentar desafios e superar riscos se torna quesito de sobrevivência. Nesse tempo de acirrado culto da performance, qualquer deslize pode custar caro.

Em cada esfera da vida é necessário exibir desempenho exemplar. Caso contrário pode-se estar condenado ao insucesso e ao ostracismo social. Sendo assim, o sujeito empreendedor deve cuidar de sua vida pessoal com o mesmo esmero com que gere sua vida profissional. Também nas relações sociais o nível de exigência precisa ser alto. É preciso ostentar desempenho superlativo para que se possa atrair interesse e admiração. A esse respeito, Freire Filho (2010, p. 15) comenta que a "expansionista indústria do bem-estar e do aprimoramento pessoal disponibiliza uma alentada rede de produtos e serviços".

O ambiente competitivo que vigora na esfera profissional se estende para o âmbito da vida pessoal. Em qualquer idade e para qualquer um, não basta ser atraente, ativo e disponível

Tal premissa vigora até mesmo nas áreas mais íntimas da existência, como no âmbito das práticas sexuais que interessam mais diretamente à reflexão aqui proposta. É relevante questionar a relação entre a comunicação midiática e o consumo de produtos e serviços destinados a potencializar o desempenho sexual, bem como a maneira pela qual as subjetividades são chamadas a se adaptar para que os indivíduos possam ser percebidos como inseridos no contexto hipercompetitivo da contemporaneidade.

A mercadorização do sexual

Ao discorrer sobre as transformações na intimidade em nossos dias, Giddens (1993, p. 73) percebe que "o cultivo de habilidades sexuais e a capacidade de proporcionar e experimentar satisfação sexual" são hoje indispensáveis. Como lembra o autor, a indústria do bem-estar coloca à disposição uma "multiplicidade de fontes de informações, de aconselhamento e de treinamento sexual" (idem) que prometem conferir "algo a mais" nas relações sexuais atuais.

É fundamental preocupar-se constantemente em promover um upgrade na performance sexual, como se houvesse uma espécie de esgotamento ou tédio nas atividades sexuais mais cotidianas. Os parceiros estão em busca de kits que lhes permitam potencializar o prazer, reduzir a monotonia de relações mais duradouras, ou apenas mostrarem-se felizes e bem-sucedidos por dominarem novas táticas que prometem potencializar o gozo.

Em tempos de neoliberalismo, o sujeito empreendedor se esmera na gestão de si como se fosse, ele próprio, um produto com o objetivo de tornar-se socialmente atraente e desejável. Como parte da engenharia individual, uma aparência jovem, saudável e uma boa disposição física e mental comparecem como atributos mandatórios. Para atingi-los o sujeito sai em busca da miríade de ofertas que se apresentam. O importante é apostar todas as fichas no autoaprimoramento para promover e ampliar seu valor social. Pode-se dizer que há hoje certa anormalidade percebida em relação àqueles que se afastam dessa busca.

Em qualquer idade e para qualquer um, não basta ser atraente, ativo e disponível. Além do corpo turbinado por exercícios e próteses de todo tipo, é preciso constituir-se como um verdadeiro atleta sexual, apropriando-se de saberes e recursos antes restritos a profissionais do ramo. A constituição do sexual como arena de mercado pode ser constatada em todos os momentos, nos mais diversos ambientes. Ela é visível, sobremaneira, no discurso midiático.

Retomando o consumidor, seus desejos, necessidades e desafios constantes, um desempenho sexual impecável, além do esperado, configura o leque de predicados exigidos em uma sociedade que cultua os que por alguma razão se situam muito acima da média. O desejável seria a performance diferenciada, desempenho e desenvoltura extraordinários, troféus a serem exibidos para todos e por cada um. Estimula-se o consumo de produtos, serviços e saberes na luta cotidiana contra a insegurança da mediocridade. Acessórios como sex toys e lingerie provocante, aliados a práticas como o strip tease, a dança do ventre ou a pole dance prometem novos e irresistíveis prazeres e tornaram-se um must para indivíduos de qualquer idade ou posição social.

Para além da proliferação dos sex shops nas cidades brasileiras, o erotismo tem lugar de destaque no discurso midiático. Diversas emissoras de TV diariamente dedicam partes de sua programação a pautas relativas à sexualidade. Frequentemente esses programas e outros conteúdos midiáticos são legitimados por indivíduos das mais diversas áreas. São modelos, artistas, médicos, políticos, líderes de opinião diversos que se apresentam aptos a contar, a uma audiência em constante busca de referências para novas ações empreendedoras e formações identitárias, algo que ainda não seja de domínio público a respeito de práticas sexuais "da moda", mais eficientes, irresistíveis, que proporcionem um melhor desempenho.

O cultivo de habilidades sexuais e a capacidade de proporcionar e experimentar satisfação sexual são hoje indispensáveis. Assistimos a consolidação da esfera sexual como arena onde se enseja a promoção de uma vasta gama de produtos

Segundo Bauman (2008, p. 87), "há muitas áreas em que precisamos ser mais competentes, e cada uma delas requer uma compra. Compramos para parecer, compramos para melhorar a impressão de quem nos consome". Nossa argumentação sugere que atualmente também na esfera das práticas sexuais mais cotidianas tudo se transforma em mercadorias, que devem ser consumidas com o objetivo principal de projetar uma imagem de indivíduo cuja performanceé superior. Esse indivíduo seria percebido como mais atraente e desejável no ultracompetitivo mercado das subjetividades contemporâneas.

Afinal é sabido que os discursos midiáticos não são ingênuos. Parece haver um interesse por parte dos produtores dos conteúdos em não apenas comercializar certos produtos propriamente ditos como, sobretudo, construir sentidos sociais que enfatizam sua importância para uma eficaz gestão de si na qualidade de vida. Devemos refletir sobre a constituição desses sentidos, uma vez que os discursos da mídia permeiam, orientam e modulam o contexto sociocultural e as diversas práticas de consumo.

Em tempos de neoliberalismo, o sujeito empreendedor se esmera na gestão de si como se fosse, ele próprio, um produto com o objetivo de tornar-se socialmente atraente e desejável

Assistimos a consolidação da esfera sexual como arena onde se ensejam a promoção e o consumo de uma vasta gama de produtos relacionados às práticas sexuais. Os interesses existentes por parte dos produtores de conteúdo midiático em apresentar artigos diversos em forma de sentidos sociais encontram eco também na indústria de bens de consumo. Néstor Garcia Canclini (1999, p. 78) destaca que "é inegável que as ofertas de bens e a indução publicitária de sua compra não são atos arbitrários". Como ensina, "comprar objetos, atribuir-lhes funções na comunicação com os outros são os recursos para se pensar o próprio corpo, a instável ordem social e as interações incertas com os demais" (1999, p. 83). Os discursos transformadores funcionam de modo pedagógico. Sabemos do papel central desempenhado pelos discursos midiáticos na construção da subjetividade.

Douglas Kellner » O filósofo ensina que "a cultura da mídia é vista como um terreno de disputa que reproduz, em nível cultural, os conflitos fundamentais da sociedade" (2001, p. 134). O autor reforça esse pensamento quando apresenta a noção de "horizonte social" (2001, p. 137), a qual se refere "às experiências, às práticas e aos aspectos reais do campo social que ajudam a estruturar o universo da cultura da mídia e sua recepção" (idem). Finalmente, o autor conclui afirmando que a "cultura veiculada pela mídia divulga imagens e cenas poderosas em termos de identificação que podem influenciar diretamente o comportamento, criando modelos de ação, moda e estilo" (2001, p. 142).

De acordo com Paula Sibilia, nos dias de hoje "o produto comprado e vendido, em todos os casos, é o consumidor" (2002, p. 35). Para desbancar a competição no mercado das subjetividades, a mesma lógica prevalece: ser o(a) mais atraente para ser o escolhido(a), ter sucesso. O principal perigo é tornar-se falha(o) ou obsoleta(o). Daí estarmos sujeitos às "tiranias do upgrade", expressão utilizada por Sibilia para descrever o cruel imperativo do autoaperfeiçoamento perpétuo.

Ao escrever sobre a importância dos meios de comunicação na formação de identidades, Douglas Kellner (2001) comenta que, diferentemente de séculos atrás, a construção de identidades ocorre hoje como no teatro, por meio da representação de papéis. Diz o autor "a identidade pós-moderna gira em torno do lazer e está centrada na aparência, na imagem e no consumo" (2001, p. 311).

Jogo » Kellner explica que o lazer ao qual se refere poderia ser um jogo onde todos conhecem as regras e jogam de acordo com elas. O autor encerra essa argumentação ao afirmar que "o jogador torna-se alguém quando é bem-sucedido e obtém identidade por meio de admiração e do respeito de outros jogadores" (Kellner, 2001, p. 311).

Para concluir

Ao que tudo indica, a mercadorização do sexual se apresenta como forma de fornecer instrumentos para a autogestão do indivíduo, este também como mercadoria, em um jogo descrito por Kellner. Habilidades sensuais, conhecimentos de práticas eróticas, aquisição de sex toys, novos e antigos saberes e condutas, tudo isso faz parte do kit de predicados indispensáveis aos moldes de certa pedagogia midiática em vigor.

À disposição daqueles que estão prontos a investir no constante aprimoramento da sua autoimagem, incontáveis matérias de jornais e revistas anunciam todo tipo de serviços e produtos voltados para esse fim. Essas ofertas não falam apenas de como o indivíduo que busca destaque deve se posicionar. Elas ressaltam também as dificuldades e medos que devem ser superados para se atingir esse objetivo. As soluções estariam ao alcance de cada um, bastando uma dose certa de investimento pessoal para alcançá-las. O sucesso, a satisfação e o bem-estar não seriam resultados do acaso ou do destino; tornariam-se obrigação e dependeriam fundamentalmente do empenho individual.

O sucesso, a satisfação e o bem-estar não seriam resultados do acaso ou do destino; tornaram-se obrigação e dependeriam fundamentalmente do empenho individual

Num contexto onde juventude, beleza, sensualidade e máxima performance constituem chaves para o sucesso, as mais diversas práticas de consumo se apresentam como investimentos indispensáveis no ideário do amante irresistível.

Referências
BACCEGA, M. A. Campo da comunicação. In: BARROS FILHO, C. e CASTRO, G. G. S. (Orgs.). Comunicação e práticas de consumo. São Paulo: Saraiva, 2007.
_____________________. Interrelações comunicação e consumo na trama cultural: o papel do sujeito ativo. In: CASTRO, G. G. S. e TONDATO, M. P. (Orgs.). Caleidoscópio midiático: o consumo pelo prisma da comunicação. São Paulo: ESPM, 2009. E-book disponível em: http://ppgcom.espm.br/images/docs/caleidoscopio_midiatico.pdf.
BAUMAN, Z. Vida para o consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
CANCLINI, N. G. Consumidores e cidadãos. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1999.
CASTRO, G. G. S. Comunicação, consumo e capital humano: cultura digital e a mercantilização das subjetividades. In: FREIRE FILHO, J. e CO ELHO, M. G. P. (Orgs.). A promoção do capital humano: mídia, subjetividade e o novo espírito do capitalismo, p. 173-186. Porto Alegre: Sulina, 2011.
FREIRE FILHO, J. (Org.). Ser feliz hoje: reflexões sobre o imperativo da felicidade. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2010.
GUIDDENS, A. A transformação da intimidade: sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas. São Paulo: Ed. Unesp, 1993.
KELLNER, D. A cultura da mídia. Bauru, SP: Edusc, 2001.
ROCHA, E. e CASTRO, G. G. S. Posfácio. In: CASA QUI, V. e ROCHA, R. M. (Orgs.). Estéticas midiáticas e narrativas do consumo. Porto Alegre: Sulina, 2012.
SETYON, C. Sexo, mercadoria e hábitos de consumo em HQ: comunicação, empreendedorismo e gestão de si como produto. Dissertação de mestrado. Orientação: Gisela G. S.
Castro. PPGCO M ESPM, São Paulo, 2011.
SIBILIA, P. O show do eu. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
____________. O homem pós-orgânico: corpo, subjetividade e tecnologias digitais. Rio de Janeiro: Relume-Dumara, 2002.


Disponível em http://sociologiacienciaevida.uol.com.br/ESSO/Edicoes/45/artigo279543-1.asp. Acesso em 29 jun 2013.

sábado, 6 de julho de 2013

Após nascer com sexo trocado, casal transgênero se apaixona em terapia

Virgula
19 de Junho de 2013 

Aparentemente eles são um casal comum se não fosse por um detalhe: ambos são transgêneros, ou seja, o rapaz nasceu menina e a moça nasceu menino. Katie Hill, de 19 anos, nasceu, e viveu suas 15 primeiras primaveras como Luke; já Arin Andrews, de 17 anos, veio ao mundo como Esmerald e chegou a ganhar concursos de beleza e se destacar no balé durante sua infância. Na adolescência, já como transgêneros, os dois se apaixonaram e iniciaram um relacionamento.

Ambos lutavam com sua sexualidade quando crianças e iniciaram terapia hormonal ainda muito jovens, mais tarde, quando frequentavam um grupo de apoio aos trans, em Tulsa, Oklahoma, EUA, se conheceram e se apaixonaram.

“Tudo o que vi foi um cara bonito. Nós somos perfeitos um para o outro, porque ambos tivemos os mesmos problemas na infância. Ambos vestimos o mesmo manequim e ainda podemos trocar nossas roupas velhas, que nossas mães insistiam em comprar e odiávamos”, contou Katie em entrevista ao “Daily Mail”.

Segundo ela, os dois são tão convincentes em suas novas identidades, que ninguém sequer percebe que são transgêneros. “Secretamente nos sentimos tão bem com isso, pois é a maneira como sempre quisemos ser vistos”, explica.

O casal, em sua luta diária por ter as formas que sua personalidade pede, passa ainda passa por tratamentos com hormônios: Arin ingerindo testosterona para ganhar formas mais masculinas e Katie tomando doses de estrogênio, que lhe renderam seios naturais, sem implante de silicone.

Conforme o jornal britânico, Katie é considerada uma mulher, legalmente, desde seus 15 anos, e acredita que nasceu naturalmente com altos níveis de estrogênio, já que desde o pré-primário tinha pequenos seios, mesmo tendo o corpo bem esguio. Ela, inclusive, ganhou uma cirurgia de mudança de sexo, quando fez 18 anos, depois de um doador anônimo ficar comovido com sua história.

“Desde os três anos eu sabia que, no fundo, eu queria ser uma menina. Tudo o que eu queria era brincar com bonecas. Eu odiava meu corpo de menino e nunca me senti bem nele. Mantive meus sentimentos em segredo total até crescer. Agora eu e Arin podemos compartilhar nossos problemas”, diz.

Arin se lembra de uma experiência semelhante, e diz que sabia que era um menino desde o seu primeiro dia de escola, aos cinco anos. “Os professores separaram as meninas e os meninos em filas para uma brincadeira. Eu não entendi porque me pediram para ficar com as meninas. Coisas femininas nunca me interessaram, mas eu estava preocupado com o que as pessoas pensariam se eu dissesse que queria ser um menino, então mantive isso em segredo”, confessa.

Ainda criança, a mãe de Arin, Denise, incentivou a criança a fazer balé, mas o amor secreto de Arin era pilotar motos, fazer triatlo e escalada. “Mamãe e papai argumentavam que motocross entrava em confronto com a minha agenda de dança”, lembra ele, que aos 11 anos conseguiu fazer sua mãe desistir de vê-lo como uma bailarina.

Denise Andrews hoje apoia o filho e o ajuda com as doses de testosterona, além de ter ajudado a pagar a cirurgia de remoção de mamas, depois de o garoto passar anos se apertando em faixas e cintas para esconder os seios e sofrendo bullying na escola.

“Eu parecia uma menina bonita, mas agia e andava como um menino. Todo mundo começou a me chamar de lésbica. Era muito humilhante. Eu não me sentia gay. Comecei a ter pensamentos suicidas e disse aos meus pais que me sentia confuso, mas eu nem sabia que existiam pessoas transexuais. Eles disseram ‘ok’ eu ser gay, mas me colocaram na terapia por causa da depressão”, lembra.

A história de Katie é bastante semelhante, ela também passou por momentos de depressão, pensando em acabar com a própria vida, e só descobriu o que era um transexual após uma busca na internet, tentando entender o que se passava com ela, deparou-se com a palavra na tela.

A aceitação da condição dos dois foi um processo lento para a família, mas hoje, até a avó de Katie, Judy, entende que a neta “nasceu no corpo errado”.

O casal afirma estar expondo sua história ao mundo para ajudar a aumentar a conscientização sobre as questões trans. “Mais precisa ser feito para que as pessoas saibam sobre as questões trans”, disse Katie. “Nós dois passamos anos no deserto. Me senti muito sozinha. Nossos pais não sabem como ajudar, porque nenhum de nós sabia que era trans. Ninguém deveria passar pelo que passamos”, completa.

“Minha vida mudou quando conheci Katie, percebi que não estava sozinho”, finaliza Arin, apaixonado.


Disponível em http://virgula.uol.com.br/inacreditavel/curiosidades/apos-nascer-com-sexo-trocados-casal-transgenero-se-apaixona-em-terapia. Acesso em 29 jun 2013.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

O panóptico informacional

Alexandre Quaresma

O panóptico informacional é o resultado prático de uma tendência comunicacional bastante peculiar e relativamente recente da humanidade, propiciada pela internet e pelos meios digitais de comunicação da atualidade, que é a de tornar perene, volátil e utilizável os registros singulares de cada movimentação de informações que fazemos - do simples clique para acessar um endereço digital, por exemplo, a saques em terminais eletrônicos, compras com cartão de crédito em lojas e supermercados, perfis em redes sociais, além de outras fontes (ortodoxas ou não ortodoxas) de geração de dados sobre o indivíduo -, movimentos estes que são registrados sistematicamente no próprio sistema, e que, portanto, podem ser monitorados, rastreados, acessados, consultados e utilizados para diversos fins. Isso nos revela as seguintes questões: A quem pertence a informação gerada on-line? Quem se interessa pelo manancial digital de dados e informações que se constituem a partir das interatividades individuais de cada um dos usuários da internet? Poderiam eles ser usados indiscriminadamente por provedores e demais empresas do ramo para fins comerciais? Seria lícito fazê-lo sem o consentimento expresso dos usuários que geram esses mesmos dados?

Bem, a resposta pode ser surpreendente. Há atualmente um ramo das ciências cibernéticas chamado mineração de dados, técnica que propicia o cruzamento de todas estas fontes possíveis de informações de um cidadão comum, por exemplo, o que permite aos operadores deste sistema de mineração traçar um perfil completo das atividades e zonas de interesse desse mesmo indivíduo, o que tem demandado enormes interesses das grandes corporações. Para compreendermos o contexto onde ocorrem esses eventos, é importante dizer que a mineração ocorre numa esfera chamada de universo dos grandes dados, ou big data, onde o desafio operacional do sistema é exatamente garimpar e correlacionar estes grandes conjuntos de dados de maneira a serem palatáveis e úteis. Principalmente as empresas que querem lucrar com o manejo e uso dessas informações. É possível - por meio da análise sistemática desses grandes conjuntos de dados coligidos pela mineração - extrair padrões que podem indicar tendências nos comportamentos das grandes massas sociais, por exemplo, algo que, sem dúvida, torna-se estratégico no competitivo mundo dos negócios, seja qual for o seu segmento de atuação. Esses sistemas se prestam também a subsidiar estatísticas, gerar bancos informacionais, identificar padrões sistêmicos, prever cenários, manipular e controlar fluxos de objetos, pessoas, dinheiro, consumo, replicar modelos complexos, prever probabilidades etc.

Nada escapa ao controle do sistema

A coisa acontece da seguinte forma: De acordo com os sites e assuntos que pesquisamos na rede, quando estamos navegando nela, a própria rede - através de seus robôs cibernéticos - acaba identificando o que nos ocupa, o que desejamos saber, comprar, comer, o que de fato compramos, o que pensamos e, especialmente, onde estamos e o que podemos querer fazer a seguir, pois isso pode ser muitíssimo interessante do ponto de vista comercial.

Junte-se a isso a multiplicação dos ambientes monitorados por câmeras, as imagens geradas por satélite e por pequenas naves espiãs não tripuladas e perceberemos que nada mais pode escapar a este tipo de controle que nós mesmos instituímos. Será que alguém de fato, algum dia, já se perguntou a sério acerca do que é feito com a informação que geramos sobre nós mesmos, não só em compras e transações on-line, mas também em comunidades e redes sociais, contas de e-mail e buscadores eletrônicos da internet? Porque interessa tanto aos grandes provedores da comunicação online oferecer - "gratuitamente" - serviços complexos como correios eletrônicos, chats, blogs, canais de TV, portais de notícias, além de outros serviços relacionados ao entretenimento e à interconectividade, como redes de relacionamento, sites temáticos, de compra e tudo mais? A resposta pode ser que enquanto estamos conectados e interagindo na rede internacional de computadores, usufruindo de suas delícias e benesses, estejamos, concomitantemente, abastecendo com nossas informações pessoais mais importantes todo um banco informacional privado que se constrói em torno de nós e de nossas ações. Sem embargos, tratamos aqui de uma nova forma de controle, na qual os controlados parecem assentir e até ajudar a consolidar o próprio ambiente panóptico informacional que se constitui em torno de si. Nossos celulares ultramodernos, que fazem tudo que se possa imaginar - além de telefonar -também funcionam como excelentes rastreadores para estes sistemas, ou seja, servem para nos rastrear, pois é possível identificar a mobilidade do indivíduo através dele, mesmo que este não venha a efetuar chamadas, pois possuem sistema de GPS. Essa conectividade imersiva que tanto cultuamos, em todos os lugares e ambientes, também nos transforma em dados instantâneos que podem ser acessados e usados mercadologicamente até mesmo contra nós, cidadãos, usuários e consumidores, no sentido de prever e manipular a nossa ação de consumo, induzindo-nos, sempre, a mais consumo.

 De acordo com os sites e assuntos que pesquisamos na rede, quando estamos navegando nela, a própria rede - através de seus robôs cibernéticos - acaba identificando o que nos ocupa

A quem pertence as informações?

Neste sentido, vale perguntar: O que empresas como Google, Microsoft, Facebook, Tweeter e as demais grandes do ramo da internet fazem com as informações que nós geramos espontaneamente on-line? Poderiam estas empresas explorá-las comercialmente, sem o nosso consentimento consciente? Ao que parece, somos engolidos no corre-corre da vida acelerada pós-moderna e nunca paramos para ler os contratos de utilização destes softwares e produtos que, pelo menos em tese, são-nos apresentados como serviços gratuitos. Na verdade, cada aplicativo desses, tem contratos de uso complexíssimos (dúbio, muito extenso, técnico), que até mesmo advogados podem ter dúvida em interpretar. O mais comum na maioria esmagadora das vezes é que sejamos compelidos a pular o quanto antes as etapas propostas pelo detentor da marca, no processo de instalação - e isso vale também para softwares e programas de computador -, cada janela e procedimento que se apresenta, dando apenas um clique em "avançar" nas tais cláusulas, gastando o mínimo de tempo possível em cada uma destas etapas, clicando num botão que diz: "li e concordo com os termos", entrando com seus dados pessoais e dando o OK final de aceitação. Não conheço ninguém que tenha lido aquilo tudo antes de dar o OK de concordância nestes famigerados contratos de uso. Isto pode ser uma maneira escusa e velada de induzir o cidadão que se torna usuário a ceder, mesmo que sem o sabê-lo, o direito de uso dos dados e informações que ele gera, pois há um contraste significativo entre a facilidade de navegação, ou seja, o uso propriamente dito, e a dificuldade de intelecção dos contratos, sempre prolixos e grafados por meio de uma linguagem jurídica que dificulta a compreensão do cidadão usuário.

Tratamos aqui de uma nova forma de controle, na qual os controlados parecem assentir e até ajudar a consolidar o próprio ambiente panóptico informacional que se constitui em torno de si
 
Considerações finais

Já existem discussões sobre transformar tais objetos geradores de dados (os celulares, por exemplo), ou os próprios dados, de modo que a pessoa saiba e possa receber uma determinada quantia por disponibilizar comercialmente estes dados e informações que ela mesma produz em seu cotidiano. Seria uma espécie de commodity da informação. Se assim for, melhor: haverá mais transparência e honestidade na relação. O que não é possível - frisemos - é que estes dados que geramos espontaneamente - ao utilizar e consumir produtos e serviços, ao trafegarmos por ruas, avenidas e estradas, ao falarmos no telefone, ao acessarmos a internet, ao navegarmos em sites - sejam usados comercialmente para explorar e incitar as sociedades a mais consumo desnecessariamente e sem que estas saibam. Tais iniciativas de manipulação das massas, além de espúrias, encontram-se na contramão da história ecológica recente do planeta, onde as prioridades são justamente o oposto: menos consumo, um consumo mais consciente, que possa levar em conta considerações socioambientais, que gerem mais distribuição de renda, menos concentração de riquezas, a apropriação popular das tecnologias, a preservação de culturas e comunidades locais, suas tradições e assim por diante. A propósito, o grande desafio que nos aguarda nas próximas décadas é justamente a construção social da tecnologia. Não basta utilizarmos acriticamente os sistemas informacionais que nos são apresentados ou outra tecnologia qualquer. Seria interessante que também compreendêssemos seus funcionamentos estruturais e que, se possível, nos apropriássemos deles, num sentido plural de coletividade no possível manejo destes mesmos mananciais informáticos. Nomeadamente teremos que incluir no pacote de desenvolvimentos tecnológicos - ou cesta de valores técnicos, como diria Feenberg - outras considerações e valores que, a priori, não seriam tecnológicos. Ademais, numa análise mais aprofundada deste contexto que engloba tecnociências e sociedades, perceberemos com bastante clareza que as tecnologias de fato também ajudam a constituir e consagrar o real, influindo e até determinando, em muitos casos, as realidades e contextos sociais, num fenômeno que os teóricos chamam de determinismo tecnológico. Aliás, é bom lembrar: as tecnociências em si são fenômenos sociais, pois se constituem nas sociedades, para as sociedades e pelas sociedades. Não há outro meio. Neste sentido, tais contextos não devem e não podem ser impermeáveis ao controle social, sob pena de sermos engolfados numa maré tecnológica de rastreamento e controle tão absolutos que poderia desembocar numa conjuntura geopolítica panóptica e paranoica indesejável de manipulação e controle totais.

* Robôs cibernéticos » São softwares e programas de computador que possuem certa autonomia em meio informacional. Suas tarefas e diretrizes básicas são vasculhar a rede à caça das informações que lhe são indicadas. Estes entes informacionais podem, sem que saibamos, entrar em nossos sistemas, de modo a alcançar seus objetivos e cumprir seus protocolos de espionagem e rastreio de informações. Os próprios buscadores eletrônicos da internet são robôs deste tipo, que operam segundo tais expedientes.

* Panóptico » Vem de pan-óptico. Trata-se de um termo usado para designar um centro penitenciário ideal concebido por Jeremy Bentham em 1785. Resumidamente, é uma forma de vigilância institucionalizada e física, onde os detentos podem ser vistos o tempo todo por um ponto central de vigia que, ao mesmo tempo, vê ou pode ver todos o tempo todo, ao passo que não permite de maneira nenhuma que os detidos e reclusos se entrevejam entre si. Tal prática demonstrou interferir sensivelmente no próprio comportamento dos detentos observados.

* Determinismo tecnológico » O determinismo tecnológico se baseia na suposição de que as tecnologias têm uma lógica funcional autônoma, que pode ser explicada sem se fazer referência à sociedade. Presumivelmente, a tecnologia é social apenas em relação ao propósito a que serve e propósitos estão na mente do observador. A tecnologia se assemelharia assim à ciência e à matemática devido à sua intrínseca independência do mundo social. No entanto, diferentemente da ciência e da matemática, a tecnologia tem impactos sociais imediatos e poderosos (Feenberg, 2010, p. 72).

Referências
FEENBERG, A. (2010). A teoria crítica de Andrew Feenberg: racionalização democrática, poder e tecnologia. Brasília: Observatório do Movimento pela Tecnologia Social na América Latina / CDS / UnB / Capes. Série Cadernos - Primeira Versão / construção social da tecnologia / número 3-2010.


Disponível em http://sociologiacienciaevida.uol.com.br/ESSO/Edicoes/45/artigo279556-1.asp. Acesso em 29 jun 2013.