quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Holofotes sobre carnes: transhomens nas artes

Iracy Rúbia Vaz da Costa
Universidade Federal do Pará
Instituto de Ciências da Arte
Programa de Pós-Graduação em Artes

Resumo: A dissertação objetiva abordar a experiência transexual fora dos marcos patologizantes da medicina e da psiquiatria. Discute a presença de transhomens nas artes e suas narrativas seja por meio de imagens ou de palavras, de autorretratos ou autobiografias, numa abordagem dos trabalhos artísticos de João W. Nery, escritor brasileiro e Loren Cameron, fotógrafo norte-americano.


terça-feira, 29 de outubro de 2013

Criança hermafrodita luta pelo direito de decidir sexo

Ederson Ferreira
16 de março de 2013

Aos 13 anos, uma adolescente moradora do bairro Santa Rita nasceu com os dois sexos, já fez sua escolha pelo sexo que quer ficar, mas ainda enfrenta um problema que a vem perseguindo desde seu nascimento: a falta de recursos financeiros para realizar todo o procedimento de consultas e operação. Sentindo a dor da neta, sua avó procura a imprensa na tentativa de sensibilizar mais pessoas para conseguir dinheiro para ajudar a criança a sair desse problema e, assim, dar continuidade à sua vida.

De acordo com a avó da adolescente, Maria Eunice de Souza, quando a neta nasceu nenhum dos médicos comunicou à família que a criança tinha esse problema, eles só tomaram conhecimento quando chegaram em casa. “O pai descobriu que ela tinha os dois órgãos quando foi dar banho nela. Ao tirar a roupinha dela, viu que havia os dois órgãos sexuais. Nesse momento todos nós ficamos sem saber o que fazer. Passados alguns dias, nos mudamos para outro bairro e lá encontramos uma pessoa que trabalhava no posto de saúde e nos deu a orientação de procurar ajuda na Secretária de Saúde para a levarmos para Belo Horizonte para ser analisada pelos médicos”, conta Maria Eunice.

Em 2000, ainda com poucos meses de vida, a família conseguiu consultas para a criança, mas segundo a avó nada foi resolvido. “Conseguimos marcar uma consulta e fomos para BH, porém, na clínica onde fomos nada foi resolvido. O médico só examinou a criança e falou que iria marcar outra consulta, mas não marcou. Nesse período, mudamos novamente para outro bairro, procuramos outro posto de saúde para marcar consultas para ela, conseguimos novamente ir para BH e lá eles nos deram um parecer sobre o caso, explicando que ela teria que passar por uma cirurgia. Voltamos para Valadares e por diversas vezes íamos à Capital consultar, mas não passava disso, ficávamos só consultando e fazendo exames, resolver o problema mesmo, nada.”

Por causa disso, a família perdeu as esperanças. Anos depois, a adolescente fez sua escolha e contou à avó, que ganhou forças para lutar pelo direito de sua neta. “Ela já sabe o que quer, fez sua escolha. Agora quero resolver tudo isso, porém, vou buscar ajuda de outra forma. Busco uma ajuda da população para conseguir recursos para as consultas. Sei que é difícil para as pessoas ajudarem, mas qualquer coisa que puderem fazer, serei grata. O que mais quero é resolver esse problema da minha neta, para que ela viva como qualquer criança normal”, revela Maria Eunice. 


Disponível em http://www.drd.com.br/news.asp?id=50089207933485507971. Acesso em 28 out 2013.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Mais de 40% dos jovens homossexuais não usam regularmente preservativos

Elaine Patricia Cruz
30/07/2013

Cerca de 42% dos jovens homossexuais do sexo masculino nem sempre usam preservativos em suas relações sexuais. O dado foi divulgado hoje (30) pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo com base em dados coletados durante a Parada do Orgulho LGBT (gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, transexuais e transgêneros) deste ano, na capital paulista.

“Os adolescentes conhecem o preservativo e conhecem os riscos e as questões das doenças sexualmente transmissíveis, mas o que nós temos certeza é que conhecer o preservativo não garante o [seu] uso. E quando tem um parceiro fixo, esse é um fator importante para se deixar de usá-lo [o preservativo]”, disse Albertina Duarte Takiuti, médica e coordenadora do Programa Estadual de Saúde do Adolescente, em entrevista à Agência Brasil.

Para o levantamento, a secretaria ouviu 108 jovens, de ambos os sexos biológicos, com idades entre 10 e 24 anos, e que se consideram lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros. Desse total de jovens, 20% disseram que o uso da camisinha nas relações sexuais acontece de vez em quando, mas o número é maior entre os entrevistados do sexo masculino (42% do total).

De acordo com o levantamento, 43,7% dos entrevistados do sexo feminino disseram nunca usar preservativos nas relações sexuais, enquanto entre os homens o percentual é 3,3%. A principal justificativa das mulheres para não usarem o preservativo é o fato delas acreditarem que sexo entre mulheres não necessita deste tipo de prevenção. Entre os homens, o principal motivo para não se usar camisinha é ter parceiro fixo. “As mulheres acreditam que nada vai acontecer. E os homens acreditam que o parceiro fixo garante a relação sexual [sem riscos]. O parceiro fixo não garante, de forma nenhuma, a possibilidade de não se ter risco. Na verdade, a prova de confiança do parceiro fixo é uma ilusão”, disse ela.

Segundo a médica, mesmo em uma relação entre duas mulheres há a necessidade do uso de preservativos ou de cautelas para se evitar a contaminação ou os riscos de se adquirir uma doença sexualmente transmissível. “É preciso desmistificar que o preservativo diminui o prazer. O preservativo é uma película tão simples que pode aumentar o prazer: o contato com a pele fica menor, prolongando o prazer. E, psicologicamente, tira o medo, o risco e a situação de vulnerabilidade. Uma pessoa que tem atividade sexual coberta de mais segurança, tem um desempenho melhor”, disse Albertina.

A pesquisa apontou que a maior parte dos entrevistados  - 87% do total -  acha que o público LGBT é mais vulnerável ou corre mais riscos que os heterossexuais. O principal risco apontado por eles (por 20% do total de entrevistados) foram as doenças sexualmente transmissíveis.

Na capital paulista funcionam duas casas do Adolescente, que oferecem atendimento médico e psicológico a jovens entre 10 e 20 anos. Uma delas funciona em Pinheiros; a outra, em Heliópolis. Há também 21 unidades espalhadas por todo o estado. A Casa do Adolescente oferece atendimento multidisciplinar, com médicos, dentistas, fonoaudiólogos, assistentes sociais, enfermeiros, psicólogos e professores.

As casas do Adolescente mantém o Disque Adolescente, serviço gratuito de comunicação em que os jovens podem tirar suas dúvidas sobre sexo seguro, anticoncepcionais e relacionamentos afetivos, entre outros assuntos. O serviço funciona de segunda a sexta-feira, das 11h às 14h, pelo número (11) 3819-2022.


Disponível em http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-07-30/mais-de-40-dos-jovens-homossexuais-nao-usam-regularmente-preservativos. Acesso em 28 out 2013.

domingo, 27 de outubro de 2013

De quitinete a cobertura, estilista das travestis faz sucesso internacional

Carolina Garcia
07/10/2013

Com a roupa certa que “dá axé”, travestis podem “cabanar” pelas ruas de São Paulo e do mundo. O verbo ganhou espaço no bajubá - linguagem usada pelo grupo - após o sucesso da marca Tereza Cabana, a precursora da moda trans no País e que é cultuada por suas clientes há 23 anos. A ousadia das costureiras Terezinha Cabana, de 70 anos, e sua filha Cris Cabana, de 45, ganhou um público marcado pelo preconceito e conhecido pelas práticas ousadas para esconder a identidade. “Mulher encontra calcinha em qualquer lugar, travesti não”, defendeu Cris a sua peça, que promete “aquendar a neca” (segurar o pênis).

De uma quitinete de 27 metros quadrados para uma cobertura quase dez vezes maior nos Jardins, bairro nobre de São Paulo, mãe e filha construíram patrimônio ao desenharem vestidos tubinhos, calcinhas e trikinis, peça clássica para o guarda-roupa de uma travesti. Os tecidos que estampam o animal print e as cores neon são os campeões de venda. O carro-chefe do ateliê é a calcinha de vinil, um dos materiais mais resistentes, que pode ser comprada por R$ 30 a unidade ou R$ 15 no atacado (com venda mínima de 40 peças).

Para a paulistana Cris, o acaso foi responsável pela origem da marca e pelo sucesso internacional. Em meados de 1990, a visita da travesti Mônica, jovem de 17 anos e “com um corpo escultural”, inspirou as profissionais e despertou suas atenções ao público gay. “Montei alguns modelos de vestidos e ela saiu para trabalhar. Sempre voltava da rua contando o sucesso que tinha feito com as peças. A Mônica deu a luz inicial”. Na primeira semana de trabalho, cerca de 20 travestis fizeram fila a espera de novas criações. “Nossa casa era muito pequena. Nunca imaginei que tivesse tantos travestis em São Paulo”, disse, aos risos.

Entre suas clientes estão as profissionais do sexo e transexuais, como Ariadna Arantes, que ficou conhecida após participar da 11ª edição do reality show BBB. Ao iG , ela disse ter conhecido a marca em Milão um ano antes de sua operação para mudança de sexo, em 2007. “Usar roupas da moda feminina comum era meio complicado para uma menina como eu. Era um incômodo muito grande”. Na falta de opção, e por desespero em esconder a identidade, a ex-BBB usava calcinha de vinil que chegava a cortar a pele.

"Moda feminina comum era complicado para uma menina como eu", diz a ex-BBB Ariadna
“Muitas [travestis] usam super bonder, emplasto e até fita adesiva para esconder a real identidade. A marca [Tereza Cabana] se consolidou porque a moda ainda não abriu espaço para esse público”, defendeu Ariadna.

Com o mercado de São Paulo já garantido, o próximo desafio para a marca é a Europa. “O boca a boca foi fundamental para as vendas lá fora. Ainda em um tempo sem internet, passamos 11 anos vendendo de porta em porta por 30 dias durante o verão europeu”, explicou Cris. Entre seus roteiros de viagem estão as capitais da Itália, Paris e Suíça, por exemplo. “E nem preciso me preocupar com hospedagem. Elas [clientes] me recebem em suas casas, pensões e até puteiros. Em uma das viagens, cheguei a vender US$ 22 mil em mercadoria”, contou.

Em um amplo ateliê, também nos Jardins, Cris e a mãe dividem a confecção das peças. Ao menos cem modelos são produzidos em um dia cheio de trabalho - a marca rende um lucro mensal de ao menos R$ 15 mil por mês. A última aquisição da empresa foi uma poderosa máquina de costura, carinhosamente apelidada de “Ferrari” pelas donas. “É a nossa queridinha agora. Ainda estou pegando o jeito dela”, explicou Terezinha.

Trikini é peça clássica no guarda-roupa travesti. Custa em média R$ 150 no ateliê dos Jardins.

Preconceitos e axé

A palavra preconceito não faz parte do vocabulário da nordestina Terezinha. Criada em Fortaleza, ela saiu de casa aos 15 anos e, por isso, se define como “dura na queda e das antigas”. Mas se contradiz ao ter uma mente aberta no convívio com o mundo gay. “Não faz sentido ter preconceito. Quando morremos o bichinho que come o branco também come o preto”.

Não são todos, no entanto, que acompanham seu pensamento. O fluxo frequente de travestis em sua casa já rendeu processo na Justiça. “Fui processada por vizinhos porque associavam travestis ao tráfico de drogas. E eu só tentava vender minhas roupas”.

Com um discurso recheado de frases polêmicas, Tereza usa o bom humor para se referir à marca que leva o seu nome. “As meninas sentem que somos as estilistas delas e que usar Tereza Cabana dá axé [sorte]. É que as peças são produzidas por uma virgem”, disse a idosa fazendo movimentos com os olhos apontando para filha. “Ela só pensa em trabalho, sabe? Eu acho que é virgem ainda”.


Disponível em http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/sp/2013-10-07/de-quitinete-a-cobertura-estilista-dos-travestis-faz-sucesso-internacional.html. Acesso em 14 out 2013.

sábado, 26 de outubro de 2013

Transexuais: quero ser mulher também no meu RG

Iran Giusti 
12/06/2013

Nascida no corpo de um homem, a modelo carioca Felipa Tavares foi percebendo desde a infância que a sua identidade era feminina. Hoje, aos 26 anos, ela tem a convicção de que é uma mulher, inclusive se veste e se porta como tal. Porém, o seu RG ainda contraria o que ela sente, a identificando como uma pessoa do sexo masculino.

Assim como Felipa, diversas transexuais brasileiras enfrentam o demorado processo jurídico para trocar o nome de batismo pelo outro que elas escolheram. Além representar reconhecimento de uma identidade própria, o documento alterado também evita uma série de constrangimentos dolorosos.

Felipa Tavares ao iG Gente: "Se for só beijinho, 
não falo que sou transexual"

“Mudar o nome tem um peso enorme. Estou cansada de chegar aos lugares e começar a ser desrespeitada no minuto seguinte depois que eu apresento o meu RG. Uma vez no banco, o gerente pegou meu documento, chamou os colegas e começou a dar risada apontando para mim”, desabafa Felipa, relatando apenas um dos inúmeros constrangimentos que já passou.

Mudar o nome tem um peso enorme. Estou cansada de chegar aos lugares e começar a ser desrespeitada no minuto seguinte depois que eu apresento o meu 
RG (Felipe Tavares)

Como o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) não contabiliza os transexuais no censo, ainda não há números exatos sobre a porcentagem que eles representam no total da população brasileira. Mas dados do SUS (Sistema Único de Saúde) fornecem uma pista da situação, ao mostrar que são realizadas diariamente no Brasil duas cirurgias de mudança sexo.

Embora tenha esse desejo, Felipa ainda não conseguir fazer a mudança de sexo, mas já entrou na justiça com o pedido para mudar de nome. Mas antes disso, ela precisou passar em nove cartórios do Rio de Janeiro, onde mora, para reunir os documentários necessários para o processo.

A advogada Luisa Helena Stern , 47, já venceu tanto o processo jurídico quanto o médico. “Ter o seu nome no RG é uma grande conquista. Tirar a certidão de nascimento com o nome novo, aquele que te representa, é como nascer de novo, só que desta vez, do jeito certo”, constata Luisa, que vive em Porto Alegre.

Luisa relata que o processo de mudança do RG acelerou quando ela fez a mudança de sexo. “Quando entrei na justiça, eu ainda não havia feito a cirurgia e notei que o juiz protelou ao máximo a alteração no documento para que ambas as coisas acontecessem juntas”, observa a advogada, que realizou as duas modificações no ano passado.

Ela agora aguarda decisão da justiça para que em seu documento  o campo 'sexo' seja alterado de 'masculino' para 'feminino'.

Acompanhando atualmente oito casos de transexuais que querem mudar de nome, o advogado Eduardo Mazzilli conta que a duração do processo jurídico varia muito nas diferentes regiões do Brasil. Em São Paulo, todo o trâmite costuma levar em torno de quatro meses, mas em outro estados, o tempo total pode ser dez vezes maior, chegando a quatro anos.

“Há relatos de casos de transexuais que não conseguiram lidar com o preconceito e se mataram durante o processo da troca de sexo e até do nome”, revela Mazzilli.

Apesar da demora, o advogado diz que juridicamente o processo é simples, o que acaba prolongando o tempo é a quantidade de documentos exigidos. “É necessário apresentar desde RG e CPF até documentos relativos a ações penais, assim como o documento de alistamento militar. Algo que muitas delas não têm porque não tiveram coragem de se alistar”, aponta Mazzilli.

Ter o seu nome no RG é uma grande conquista. Tirar a certidão de nascimento com o nome novo, aquele que te representa, é como nascer de novo, só que desta vez, do jeito certo (Luisa Helena Stern)

“Para mudar o RG, é preciso demonstrar para o juiz que a transexual usa o nome feminino no dia a dia. Isso pode ser comprovado com perfis em redes sociais e até documentos que comprovam a participação em palestras”, exemplifica o advogado. “A mudança de sexo é mais complicada, exige laudos médicos e a realização da cirurgia em si, que já é muito difícil” completa.

Numa tentativa de encurtar o tempo da burocracia, a Centro de Referencia em Direitos Humanos do Pará criou a Carteira de Nome Social, também conhecido como Carteira Trans, documento para transexuais e travestis que é válido em todo o estado, nos ambientes estatais e privados. Não é necessário de medida judicial para requerê-lo, basta apenas que a (o) interessada (o) compareça ao órgão paraense.

“Este documento foi desenvolvido no Rio Grande do Sul, vimos o projeto e aprimoramos. Lá, ele deve ser apresentado junto ao RG, o que acaba não ajudando muito. No Pará, conseguimos contemplar todos os dados como RG e CPF, permitindo a identificação civil sem ferir a identificação social, que é como a pessoa se percebe”, avalia Bruna Lorrane de Andrade , 25, transexual que coordena o centro de referência.

Além de preencher a lacuna dos poderes judiciário e legislativo em relação aos direitos dos transexuais, o documento paraense pretende reduzir problemas causados por esse não reconhecimento da identidade, como é o caso das trans que abandonam os estudos por conta dos constrangimentos sofridos na escola.

“Esperamos que isso acabe com o estigma de que o transgênero é marginalizado, que vive sempre de prostituição”, conclui Bruna.


Disponível em http://igay.ig.com.br/2013-06-12/transexuais-quero-ser-mulher-tambem-no-meu-rg.html. Acesso em 14 out 2013.