terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O homossexualismo não vai contra a natureza

Rafael Garcia
21 de junho de 2008

Se o homossexualismo não estimula a reprodução, como ele pode sobreviver à seleção natural? A resposta para essa charada, um quebra-cabeça secular da biologia, está ganhando agora uma resposta coerente, que sobreviveu ao primeiro teste de lógica. Defendida pelo biólogo Andrea Ciani, a nova teoria indica que o homossexualismo masculino tem um componente genético herdado por parte de mãe, e os genes por trás dele são os mesmos que, em mulheres, estimulam a fertilidade.

Ciani, geneticista da Universidade de Pádua (Itália), apresentou as bases da teoria na terça-feira -cifrada em um estudo cheio de fórmulas matemáticas- na revista "PLoS One".

Com longa experiência em estudos com macacos, o cientista tem se dedicado nos últimos anos a um outro tipo de primata: o Homo sapiens. O que ele aprendeu com seu trabalho? "O homossexualismo não é contra a natureza."

Em entrevista à Folha, Ciani abre mão da estatística e traduz o significado de sua teoria.

FOLHA - O que diz seu estudo?
ANDREA CAMPERIO CIANI - Eu publiquei uma pesquisa em 2004 em que mostrei que homossexualismo em homens está conectado com um aumento na fertilidade das mães e avós da linhagem materna desse indivíduos. O que fiz agora nesse estudo para a "PLoS" foi desenvolver isso. Nós já sabíamos o que estava ocorrendo, mas não entendíamos a dinâmica, não tínhamos o modelo correto.

FOLHA - Como vocês criaram o modelo correto?
CIANI - Nós procuramos modelos genéticos que já existiam [para explicar outras características] e seguimos quatro pré-requisitos empíricos. O primeiro é que o homossexualismo está presente em todas as populações humanas. O segundo, que não há nenhuma população em que a maioria das pessoas sejam homossexuais. O terceiro é aquele que tiramos de dados empíricos: que o homossexualismo tende a seguir em famílias pela linha materna. Isso significa que se você é homossexual, há uma probabilidade maior de o seu tio materno sê-lo. O quarto, que achamos em 2004, é que mães e tias da linha materna de homossexuais costumam ter proles maiores.

Na literatura científica há muitos modelos para difusão genética de características. Há modelos que testam a difusão com um único "locus" [gene], outros com mais genes. Quando começamos a testar os modelos com dois genes, todos falharam, exceto um, que é esse modelo da "seleção sexualmente antagonística", baseado em dois genes em dois diferentes cromossomos. Um tem que ser no cromossomo X - que os homens recebem apenas de suas mães -, e o outro pode ser nos cromossomos não sexuais. Só esse modelo explicou todos os pré-requisitos que encontramos empiricamente.

Foi uma coisa inesperada. É a primeira vez que um modelo de seleção sexualmente antagonística funciona para uma característica humana. O modelo mostra características peculiares, que dão uma vantagem reprodutiva para um sexo, e dão desvantagem para outro.

O normal é imaginar que um determinado gene dá vantagem para todas as pessoas que o carregam. Mas genes como esses ligados à homossexualidade humana dão vantagem quando estão em mulheres, porque as fazem produzir mais prole, mas ao mesmo tempo criam desvantagem reprodutiva em homens, com a possibilidade de se tornarem homossexuais.

FOLHA - Isso não pode ser causado por um fator social ou psicológico?
CIANI - Nós estudamos apenas os componentes genéticos, mas não estou dizendo que o homossexualismo é determinado pelos genes. Ele é apenas influenciado. Há outros componentes, biológicos, psicossociais, experiência de vida...

FOLHA - Mas como ocorre essa influência? Como é a fisiologia?
CIANI - Eu fiz uma pesquisa sobre isso. É muito difícil, porque tive que estudar mães e tias. Na Itália não é difícil entrevistar homossexuais. Você os encontra em bares gays ou discotecas, e eles costumam estar dispostos a falar. Mas quando você pede para contatar suas mães e parentes, a coisa fica delicada.

Talvez esses genes dêem a elas uma fertilidade maior, porque favorecem uma taxa menor de abortos naturais. Ou, de outra forma, poderia lhes dar uma personalidade mais extrovertida, que facilitasse entrar em relações. Nós achamos uma evidencia tênue de que essas mães e tias têm menos problemas com reprodução e parto, em geral. Já em personalidade, não achamos nada. Mas ficamos surpresos com outra coisa: mães e tias desses homossexuais, durante suas histórias de vida, se sentiram mais atraídas por homens do que as mães e tias de heterossexuais. Então, estamos procurando fatores genéticos que, de alguma maneira, influenciem a androfilia, a atração por homens. Isso significa que, se você for mulher, você se sente mais atraída por homens e, se você for homem, se tornará ligeiramente mais atraído por homens e pode acabar se tornando homossexual.

FOLHA - Mas como isso ocorre na célula? Vocês apontam para algum gene específico, algum hormônio?
CIANI - Eu estudo genética do comportamento. Então, quando eu sei algo, sei que existem genes de como esse traço se comporta. Uma vez que você descobre como o caractere controla o traço, não importa saber exatamente onde ele está. Algumas pessoas que tentam descobrir isso têm razões com as quais eu não concordo. Caçadores de genes às vezes querem vender uma patente envolvendo a localização do gene para fazer negócio. Poderiam, aí, sugerir algo que possa evitar que seu filho se torne gay ou sua filha lésbica. Não concordo com isso. Estou interessado na natureza humana, não em "vender" um filho "melhorado" para quem quer que seja.

FOLHA - Mas seu trabalho pode ajudar os caçadores de genes.
CIANI - Sim, mas agora eles teriam uma restrição maior. Isso não é uma doença, é um traço que confere vantagem reprodutiva a um dos sexos e desvantagem a outro. Se alguém interferir aí, pode mudar a orientação de um filho, mas também pode influenciar de maneira ruim a sua filha. Se há um gene ali e não é o gene de uma doença, significa que existe uma razão para ele estar lá.

FOLHA - Gays se sentirão melhor ao saber que a natureza, não só a criação, influencia suas opções?
CIANI - A comunidade gay sempre fica muito infeliz quando pessoas falam sobre esse assunto e os jornalistas começam a usar manchetes como "Descoberto o gene gay". Isso é besteira. Nós, geneticistas comportamentais, sabemos há muito tempo que o debate de natureza contra criação é fútil. Todos os genes têm de se expressar em um ambiente. O ambiente influencia a expressão do gene, assim como o gene influencia o ambiente onde ele se expressa. Vou dar um exemplo. Todos nós temos genes que favorecem o roubo, porque se não tivermos o comportamento do roubo, não sobreviveremos em uma emergência onde ele pode ser necessário. Isso não significa que sejamos forçados a sermos ladrões.

Há genes influenciando algumas pessoas, tornando mais fácil para elas optar pela homossexualidade. Ser ou não ser homossexual, porém, é resultado de história de vida, além de genes. O que queremos saber é por que os genes que influenciam a homossexualidade existem. Um gene que reduz a taxa de reprodução das pessoas deveria desaparecer. Esse é o dilema darwiniano da homossexualidade. A posição da Igreja tem sido por muito tempo a de dizer que o homossexualismo seria um vício, um pecado contra a natureza. Com o nosso estudo, podemos dizer claramente que o homossexualismo não vai contra a natureza. Ele faz parte da natureza, e é demonstrado precisamente pela seleção sexual darwiniana.

FOLHA - O sr. também está estudando as lésbicas?
CIANI - Sim. Eu comecei a coletar muitos dados sobre lésbicas dois anos atrás, mas nosso modelo não funciona com lesbianismo. Esse é um fenômeno diferente, com uma dinâmica diferente e uma origem diferente.

FOLHA - O sr. tem dificuldade para publicar seus estudos?
CIANI - Muitos estudos são rejeitados em algumas revistas científicas. Uma hora antes de você me telefonar, um jornalista da revista "Science" me telefonou, porque estava fazendo uma matéria para o "público geral". Foi estranho, porque eu tinha submetido meu estudo para a "Science", antes da "PLoS", e eles rejeitaram dizendo que não era "de interesse geral". Não mandaram nem para os revisores.


Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2106200801.htm. Acesso em 06 jan 2014.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Travesti Musa vira celebridade e lidera projetos sociais na Baixada

Elenilce Bottari
23/11/13

Em outubro passado, o carioca Ricardo Muniz tornou-se síndico-geral do Parque Valdariosa 2, um dos três blocos do conjunto habitacional do programa Minha Casa Minha Vida, construído no bairro de mesmo nome, em Queimados, na Baixada Fluminense. Favorito de quatro candidatos, ele recebeu 385 votos. O segundo colocado teve 37. Mais do que um prêmio por sua atuação na comunidade, foi a volta por cima de um guerreiro que, desde criança, lutou contra toda a sorte de preconceito. Ricardo, de 48 anos, nasceu menino, mas hoje vive como uma mulher.

Ele é o terceiro filho de uma família de nove irmãos, quatro homens e cinco mulheres. Nascido e criado na Pavuna, aos 15 anos, começou a estudar para realizar o sonho de sua mãe, que queria vê-lo militar da Aeronáutica, onde serviu por quase dez anos até se tornar cabo. Satisfeito o sonho materno, um dia ele saiu de casa, pela manhã, trajando a farda que tanto orgulhava a mãe, mas, quando voltou, no mesmo dia, depois de pedir baixa no quartel, já era outra pessoa: Musa Pandia, com muito prazer.

— Um amigo me indicou uma moça no Centro que podia montar meu corpo no mesmo dia. Coloquei uma prótese. Quando voltei para casa, foi um choque. Minha mãe com o tempo aceitou, mas meu pai, não. Meu irmão mais velho dizia que se tivesse um irmão homossexual matava. Até hoje, ele não fala comigo — conta a travesti, que aprendeu no quartel a enfrentar animosidades e a se impor pelo respeito.

— O comandante na fila perguntava se eu era homossexual. Eu negava sempre. Dizia: “Não senhor, não senhor, não senhor” — lembra Musa, rindo e acrescentando que “ninguém acreditava mesmo”.

— Minha família sempre foi muito conservadora e tentou mudar meu jeito, mas a gente já nasce como é. E eu detestava coisas de menino. Quando ganhava roupa, eu cortava para transformar em short e colete. Apanhava, mas fazia. Meu irmão não deixava eu brincar com as bonecas das minhas irmãs. Mas eu dizia para mim mesmo que um dia iria trabalhar e ter tudo que queria.

De enfermeira a cabeleireira

Depois do flash-back, que explica em parte como é e também um pouco de seu estilo de vida, Musa mostra o apartamento de 36 metros quadrados, com 60% do espaço ocupados por bonecas, bichos de pelúcia e outros artigos femininos.

Quando deixou a Aeronáutica, ela — agora, adquiriu o direito de ser chamada como gosta — tinha a intenção de trabalhar na Itália, mas desistiu quando soube que lá poderia se perder num mundo de drogas e bebidas. O nome de guerra, Musa, veio depois que ganhou um concurso de transformista em Copacabana.
— Eu era muito nova e parecia mesmo uma menininha. Acabei ganhando — diz.

Entre os vários cursos profissionalizantes que fez, o de auxiliar de enfermagem garantiu-lhe um estágio no Hospital Salgado Filho:
— Eu estava lá quando surgiu aquela história horrorosa do enfermeiro que matava pacientes para a máfia das funerárias. Fiquei tão chocada que desisti. Então abri um salão de cabeleireiro na Pavuna, mas depois de alguns anos decidi fechar por falta de segurança.

Mais uma volta no tempo para lembrar a história do auxiliar de enfermagem Edson Isidoro Guimarães, que em 1999 foi preso acusado da morte de mais de uma centena de pacientes, durante os plantões no Salgado Filho. Musa já viu muita coisa.

Com a morte da irmã, há dois anos, ela decidiu sair da Pavuna e acabou indo parar em Queimados, no apartamento que sua tia tinha conquistado através do programa Minha Casa Minha Vida.

— Eu não conhecia ninguém e, assim que cheguei, foi complicado. As pessoas queriam me taxar, né? “Tem um veado aqui e vai esculachar o condomínio”. Passei um mês sem sair de casa. Comecei a trabalhar como cabeleireira e, aos poucos, fui ganhando a confiança da vizinhança. Quando surgiu uma vaga de porteiro, tudo mudou — recorda-se de quando virou porteira.

Piso de cerâmica e água quitada

Moradora do térreo, Musa decidiu colocar piso de cerâmica na portaria do prédio. Depois, para não ficar sem água, quitou a conta com a concessionária, que estava atrasada. Foi o bastante para, há pouco mais de um mês, ser convencida pelos vizinhos a entrar na disputa para síndico (a).
— Foi em 14 de outubro. O salão estava lotado. Eu ganhei a maioria esmagadora dos votos. Pensei “Musa, você conquistou o pessoal.”

Sem entender nada de condomínios, Musa leu dois livros para estudar suas novas funções. Em um pouco mais de um mês de trabalho, ela renegociou os débitos de R$ 53 mil de luz e R$ 18 mil de água, deixados pela administração anterior. Também construiu um abrigo para o ponto de ônibus que serve aos moradores e mudou o parque das crianças para um ponto mais seguro do condomínio.

Hoje, suas metas são segurança e saneamento. E vem lutando para impedir a venda de drogas no conjunto. Já instalou câmeras de segurança e passa o dia monitorando o movimento, através de dois monitores do circuito interno. Segundo ela, tudo no “diálogo”, mas, quando a crise é grande, admite, fala mais alto o “cabo Ricardo”.

— Não adianta ficar brigando que eles não obedecem. Eu converso uma, duas vezes. Se não funcionar, eu chamo a polícia. E vou junto para que eles saibam que fui eu que chamei, sim, porque não respeitaram o acordo.

Diferentemente de quando chegou, sem ter coragem para sair de casa, hoje, por onde passa, Musa é saudada pelos moradores e pelas crianças. Tem sempre um gaiato cantando o sucesso do MC Bola: “Ela não anda, ela desfila. Ela é top, capa de revista. É a mais-mais, ela arrasa no look. Tira foto no espelho pra postar no Facebook...”
— É sempre assim — conta a moradora Cláudia Cristina da Hora, uma das muitas fãs de Musa.

Segundo ela, a síndica já chegou trazendo benefícios para os moradores:
— A gente quer que os outros prédios tenham um piso como o que ela instalou no edifício dela, sem nem ser síndica. Aliás, ainda antes de ser síndica, o prédio dela era o único que tinha água. Por atraso do condomínio, os outros prédios estavam com a água cortada.

A maior queixa dos moradores é com o esgotamento sanitário:
— O problema é que a manilha só vem até a entrada do condomínio, e os canos internos são insuficientes e não dão vazão. Todo dia, tem entupimento, e a água volta para os apartamentos do primeiro piso. Já reclamamos com a Odebrecht, que diz já ter acabado o contrato e que a gente tem que pagar para trocar o encanamento. Mas muitos moradores aqui não têm como pagar — explica Musa, que vem buscando parcerias para melhorar a vida dos moradores.

— Nós conseguimos um ônibus do Sesc que vai trazer para cá cursos profissionalizantes. Precisamos também de lazer para os jovens. É preciso ocupá-los. Se eles continuarem sem nada para fazer, não vai dar certo, não teremos como controlar o uso de drogas — observa, com a autoridade que a experiência de vida lhe deu.

Entre os parceiros, está agora o Projeto Valdariosa, da Caixa Econômica Federal, que pretende fazer um estudo sobre o conjunto habitacional e seu entorno para produzir um plano de desenvolvimento local. O objetivo é melhorar a qualidade de vida dos moradores de unidades construídas pelo programa Minha Casa Minha Vida, do governo federal. Com apoio da prefeitura de Queimados, o projeto é executado por meio de uma parceria entre o Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e o Metrópole Projetos Urbanos (MPU).

— O objetivo é implantar ações capazes de garantir sua sustentabilidade e governabilidade e estabelecer a reaplicabilidade em outros conjuntos habitacionais do Minha Casa Minha Vida. O projeto é participativo no sentido de encontrar soluções de baixo para cima. Assim, a população e os síndicos são os protagonistas do processo — explicou o sociólogo Paulo Magalhães, do Iets, coordenador do projeto de desenvolvimento sustentável do conjunto Valdariosa. Segundo ele, o trabalho vem sendo desenvolvido de forma compartilhada e está focado em ações de trabalho, renda e governança.

Coração solitário

Construído em 2010, o conjunto fica no bairro Parque Valdariosa, em Queimados, e tem 1.500 apartamentos, divididos em três blocos: cada um conta com 25 edifícios de cinco andares. Desde outubro, a equipe do Projeto Valdariosa entrevista moradores, lideranças comunitárias e gestores locais e reúne dados estatísticos. As informações vão gerar um Diagnóstico Participativo, com perfil dos residentes e um panorama do conjunto e do bairro.

— O diagnóstico é o primeiro passo para a construção de um Plano de Desenvolvimento Integrado e Sustentável e uma agenda local — explica Magalhães.

Para Musa, a integração entre o conjunto e o entorno é fundamental para garantir a qualidade de vida e a segurança dos moradores:
— Outra reforma que estamos providenciando é a do muro. Não adianta fechar a murada que os moradores derrubam, porque não tem passagem para eles atravessarem para o outro lado da Dutra. Então, depois de uma conversa com eles, decidimos colocar portões dos dois lados, para a Dutra e para ir à padaria. Eu vou dar uma chave para cada condômino.

— O que faz a Musa fazer tanto sucesso aqui é o fato de ela respeitar os moradores. Por isso, todos respeitam ela — arrisca outro morador.

Com tantas missões a cumprir, a vida afetiva de Musa ficou de lado.
— Não tenho namorado e nem tempo para namorar. Nunca saí com ninguém do condomínio. Isso porque aprendi no quartel a nunca misturar as coisas. É a regra — prega.

O que restou da época de shows ficou na parede da sala do apartamento de Musa, que tem uma decoração psicodélica, cheia de luzes e cores.
— É o meu canto. Adoro minhas bonecas.


Disponível em http://oglobo.globo.com/rio/travesti-musa-vira-celebridade-lidera-projetos-sociais-na-baixada-10866074#ixzz2lZ9c5Wa2. Acesso em 29 dez 2013.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Como os homens veem as mulheres no trabalho (e vice-versa)

Talita Abrantes
25/11/2013

Vinte. Este é o número de vezes que um homem tem mais chance de chegar a um cargo de presidente de uma grande empresa quando comparado com uma mulher, segundo estudo da Bain divulgado durante o Fórum Mulheres em Destaque. E a diferença de estilos de gestão é uma das principais explicações para isso.

O estudo feito com pouco mais de 500 profissionais brasileiros prova que homens e mulheres se veem de maneiras diferentes no trabalho. “A mulher tende a construir relacionamentos, mobilizar o time, ajudar nos processos relacionais quando há mudanças”, afirma Luciana Batista, consultora da Bain & Co.

O problema? “Os líderes tendem a promover pessoas com estilos de gestão semelhantes aos seus”, diz a especialista. Como os homens são maioria nos cargos de liderança, a consequência não poderia ser mais óbvia.

Na hora de avaliar as próprias características, tanto mulheres quanto homens acabam caindo em alguns estereótipos.

Por exemplo, segundo os dois grupos, elas são menos eficazes do que eles na hora de controlar emoções e trabalhar com pessoas do mesmo sexo. Os homens, por sua vez, são menos eficazes ao conciliar trabalho e família e construir relacionamentos do que as mulheres, segundo o levantamento.

O desempenho feminino e masculino, segundo as mulheres

PerfilMulheres mais efetivas que os homensHomens mais efetivos que mulheres
Controla as emoções no trabalho6%65%
Gerencia situações de alta pressão15%31%
Trabalha com colegas do mesmo sexo14%32%
Toma decisões difíceis baseadas na lógica e em bom julgamento11%28%
Toma boas decisões comerciais7%19%
Forma times de alta performance21%10%
Fala/contribui de forma eficaz em reuniões de liderança17%13%
Comunica ideais ou argumentos complexos23%14%
Trabalha bem em equipes25%15%
Constrói relacionamentos com os colegas30%18%
Propõe e gerencia processos de mudança transformacional35%8%
Mantém o comprometimento com o trabalho enquanto gerencia as necessidades de suas famílias58%12%

O desempenho feminino e masculino, segundo os homens

PerfilMulheres mais efetivas que os homensHomens mais efetivos que mulheres
Controla as emoções no trabalho4%62%
Gerencia situações de alta pressão3%46%
Trabalha com colegas do mesmo sexo10%40%
Toma decisões difíceis baseadas na lógica e em bom julgamento6%30%
Toma boas decisões comerciais5%13%
Forma times de alta performance9%19%
Fala/contribui de forma eficaz em reuniões de liderança11%14%
Comunica ideais ou argumentos complexos11%16%
Trabalha bem em equipes15%16%
Constrói relacionamentos com os colegas21%21%
Propõe e gerencia processos de mudança transformacional16%12%
Mantém o comprometimento com o trabalho enquanto gerencia as necessidades de suas famílias30%28%

Estilo de liderança

Quando indagados sobre o desempenho das mulheres e homens em 10 estilos de liderança, os profissionais do sexo masculino afirmam que eles são melhores que elas exatamente nas características que são mais valorizadas pelos chefes – novamente, que são na sua maioria homens.

O que é mais valorizado nos cargos de liderança, segundo homens e mulheres

O que as empresas valorizamSegundo mulheres*Segundo homens*
Solucionar problemas53%54%
Encorajar o trabalho em equipe47%43%
Influenciar a equipe33%34%
Inspirar30%30%
Delegar28%28%
Fazer networking26%22%
Apoiar20%27%
Reconhecer24%22%
Fazer coaching/mentoring16%14%
Consultar as pessoas14%15% 
* percentual de entrevistados que atribuíram importância 9 ou 10 em um ranking de 10

O desempenho de homens e mulheres em cada item, na visão dos homens

O que as empresas valorizamDesempenho das mulheres* Desempenho dos homens*
Solucionar problemas19%25%
Encorajar o trabalho em equipe27%24%
Influenciar a equipe22%30%
Inspirar19%22%
Delegar15%22%
Fazer networking24%27%
Apoiar26%20%
Reconhecer26%17%
Fazer coaching/mentoring22%13%
Consultar as pessoas29%17%
* percentual de entrevistados que atribuíram importância 9 ou 10 em um ranking de 10

Repare que nos cinco estilos de liderança mais valorizados pelos chefes (solucionar problemas, encorajar o trabalho em equipe, influenciar a equipe, inspirar e delegar), as mulheres superam os homens em apenas um item – embora se sobressaiam em outras características.

Para elas, a consequência da cultura que valoriza o estilo masculino é clara: apenas 19% das mulheres acreditam que têm as mesmas chances de promoção que homens tão qualificados quanto elas. Entre as que estão em cargos juniores, o percentual é de 27%.

O cenário se repete nos processos de seleção e indicação. Ao todo, 60% das mulheres em cargos juniores acreditam que há igualdade entre os gêneros durante os processos de seleção. Entre as executivas, o percentual cai para 31%.


Disponível em http://exame.abril.com.br/carreira/noticias/como-os-homens-veem-as-mulheres-no-trabalho-e-vice-versa?page=1. Acesso em 29 dez 2013.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Minorias sexuais: das margens ao proscênio. Isso é real?

Rogério Amador de Melo
Tereza Rodrigues Vieira
Revista Direito & Bioética

Resumo: A transmodernidade vem sendo marcada pelas afetações diversas de subjetividades nômades que agenciam novos modos de existência, que ao longo dos anos emergem das margens sociais para relações mais próximas. Este engendramento rizomático nas relações, principalmente no que diz respeito às políticas sexuais de sexo/gêneros/sexualidades vem trazendo reflexões a respeito da visibilidade social adquirida pelas minorias sexuais, tendo em contrapartida as figuras e os discursos veiculados pelos meios de comunicação a respeito dessa temática e dessa população em específico. Contudo, o presente trabalho objetivou por meio de uma revisão de literatura, problematizar as interfaces da visibilidade conquistada pelo movimento LGBTTI (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e intersex) em contrapartida com as representações e discursos ainda disseminados de maneira fragmentada e sexista num palco de espetáculo dos considerados até então “anormais”.



sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Primeira 'transexual' da Academia de Letras relata preconceito

Mariane Peres
15/11/2013

Nicolly Bueno, de 30 anos, é o primeiro transexual a integrar a Academia de Letras de Presidente Venceslau. Com quatro livros publicados e professora da rede municipal de ensino, ela foi vítima de preconceito durante a infância e adolescência e encontrou na educação e na escrita uma oportunidade de ser aceita pela sociedade. Membro da associação desde 29 de outubro, ela acredita que a conquista é um obstáculo a mais superado.

“Eu me sinto imensamente realizada pelo que eu construí e pelo que busquei, porque, nas condições em que me encontro as coisas não são fáceis. Tive que mostrar para as pessoas que a minha capacidade não depende da minha opção sexual. Na academia, não sinto preconceito, as pessoas me respeitam e me aceitam. Na cidade, há indiferença”, conta.

O convite ser uma acadêmica veio na segunda tentativa e, para ela, foi um orgulho. Entretanto, sua trajetória na educação começou aos 15 anos, quando entrou para o antigo Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério (Cefan). Desde pequena, ela queria ser professora. Mas a caminhada foi marcada por confrontos com a família, bastante rígida, de acordo com ela.

“Na verdade, desde os cinco anos eu sentia que era diferente e meu pai é completamente preconceituoso, por isso eu sentia medo de me assumir. Quando cresci, queria virar padre, para não ter relações sexuais e não ser julgado, mas minha mãe não deixou. Me sintia deprimida por não poder ser quem era”, relata.

A partir de então, ela começou a participar de vários concursos e eventos de educação para buscar seu destaque. Ela decidiu estudar bastante para se tornar conhecida na cidade e assim ganhar seu espaço e tentar inibir o preconceito. “De certa forma, enterrei minha vida pessoal para me dedicar à vida profissional. Eu tinha medo porque minha família já me julgava”, diz.

O próximo passo era conseguir um espaço na Academia de Letras. Na primeira tentativa, ainda como homem, ela não conseguiu. “Eles alegaram a falta de idade, já que é preciso ter, no mínimo, 30 anos e na época eu estava com 24. Mas sei que decisão dos outros acadêmicos pesou também por causa da minha opção sexual”, acredita.

Após uma depressão profunda, Nicolly começou a fazer tratamento psicológico e constatou que para se curar era preciso que ela se mostrasse da maneira como sempre quis e pudesse expor a sua sexualidade. No início, foi difícil. “Quando assumi a transexualidade, muita gente achou que era uma questão de vaidade, mas não era isso. As pessoas comentavam coisas sem me conhecer. Nós, travestis e transexuais, sofremos muito”, afirma.

Tanto que ela, que nasceu Rodrigo e ainda usa os documentos com este nome, mesmo não tendo passado pela cirurgia de mudança de sexo, prefere ser chamada de transexual. “Tem muita gente que imagina que travesti é prostituta e está ligada à violência. Mas não é assim. As pessoas julgam sem piedade”, critica.


Disponível em http://g1.globo.com/sp/presidente-prudente-regiao/noticia/2013/11/primeira-transexual-da-academia-de-letras-relata-preconceito.html. Acesso em 29 dez 2013.