quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O que não deu certo para elas

Fabiana Moraes
1 de abril de 2012

Faz um ano que Juliana Amorim, 26 anos, saiu do Hospital das Clínicas (HC) após se submeter a cirurgia de redesignação sexual. Estava certa que seu cotidiano se ajustaria ao corpo que finalmente traduzia por fora aquilo o que ela era por dentro. Doze meses depois, Juliana passa por constrangimentos parecidos com aqueles que enfrentava antes de iniciar o demorado processo de transexualização: tem vergonha do novo corpo, está depressiva e não fica nua na frente do próprio marido. Seu canal vaginal, aberto quando transexuais masculinos passam para o feminino, está fechado, com o novo sexo cumprindo uma função meramente estética. Ela procurou há meses o HC para resolver o problema e teve uma péssima notícia: os procedimentos de transexualização, assim como aqueles que podem ocorrer após a cirurgia, foram suspensos. Duas outras transexuais enfrentam o mesmo problema.

O colamento das paredes (estenose) da neovagina de Juliana foi provocado pela própria paciente. "“Percebi que o canal não foi aberto totalmente no meio, e mais à direita. Quando eu movimentava a perna, o molde era expulso. Sentia dor para recolocar, sentia dor quando fazia movimentos simples. Deixei fechar para que reabrissem da maneira correta".” O molde ao qual ela se refere, um pênis de borracha com aproximadamente 12 centímetros, deve ser mantido dentro do canal para que a neovagina não se feche durante a cicatrização. Além de Juliana, outras pacientes estão com o canal fechado. Joicy Melo, 51, fez duas reaberturas para dilatar as paredes vaginais, sem sucesso. A agricultora e cabeleireira também foi informada que não há, atualmente, um médico para realizar a nova cirurgia. Outra paciente já operada que sofre de estenose, segundo o HC, é a cabeleireira Cynthia Lourenço, operada em 2006.

Segundo nota enviada pelo hospital, os procedimentos foram suspensos por conta da aposentadoria, no ano passado, do cirurgião ginecologista Sabino Pinho, responsável por todas as 22 pacientes que realizaram a redesignação sexual no HC. A retomada da marcação de consulta aconteceria, diz a nota, na segunda quinzena de abril. Apesar disso, Sabino Pinho opera, no dia 23 de abril, a transexual Graziele dos Santos, 24. A intervenção comandada pelo cirurgião explica-se pelo fato de o médico acompanhar a paciente há mais de dois anos. "“Me comprometi com ela"”, diz o médico. Seguindo a mesma lógica, resta saber por que mulheres que necessitam de intervenções de porte bem menor, a exemplo de Juliana, Cynthia e Joicy, estão há meses com o corpo fechado.

As transexuais foram diversas vezes, após a cirurgia, ao HC. Juliana, semanas após a intervenção, sofreu uma infecção urinária e ainda precisou de uma nova operação para redesenhar a vagina, já que havia excesso de pele. Durante a recuperação, uma enfermeira esqueceu fechada a sonda posta em Juliana e a urina se acumulou em seu organismo. "“A cirurgia explodiu, ficou horrível".” Uma nova intervenção foi feita para recompor a vagina. Juliana, porém, não ficou satisfeita com a aparência de seu púbis. “"Vi o resultado da cirurgia de outras meninas. Não está igual. Minha vagina está horrível, exposta, sem a cobertura dos lábios".” Ela conta que, em uma das últimas consultas, ao reclamar da aparência do púbis, ouviu do cirurgião: “"Se quisesse melhor, deveria ter nascido mulher”". Sabino Pinho diz que, antes do acidente, a cirurgia estava perfeita. "“Fiz o melhor que pude para recompor a vagina, mas é claro que não ficou do jeito que eu operei anteriormente. O que eu quis dizer é que posso fazer a dilatação, que a recomposição é o que melhor pude fazer. Não me lembro nem como falei".” A frustração com o corpo que apenas se aproxima daquilo que Juliana sempre sonhou tem provocado outras dificuldades na sua vida. Na semana passada, comemorava ter conseguido um trabalho. Na quarta, pediu para sair. "“Deixei o emprego para correr atrás da cirurgia. Não tem como ficar feliz por muito tempo".”

Joicy tem situação ainda mais complicada. Sem um parceiro para apoiá-la e vivendo em Alagoinha, no Agreste, a 250 quilômetros do Recife, a agricultora realizou a cirurgia em novembro de 2010. Em meados do ano passado, precisou dilatar as paredes do canal vaginal. Sem os cuidados necessários para manter o molde no local (uso de calcinhas mais apertadas) e sem dinheiro para comprar os medicamentos que ajudariam na cicatrização (pomada à base de fibrinolisina, cerca de R$ 50, 30 gramas), o canal fechou novamente. Voltou ao HC e refez o procedimento. As paredes colaram mais uma vez. Joicy serve como um forte exemplo de como a cirurgia de transexualização não pode ser pensada apenas como uma intervenção em si: ela envolve um cuidado mais amplo das pacientes, que precisam ser acompanhadas semanalmente após saírem do hospital (como o Sistema Único de Saúde recomenda). A não observação deste fator pelo HC tem causado não só o sofrimento de várias transexuais, mas custos mais elevados ao próprio serviço público de saúde, já que as reaberturas de canal também são feitas com verbas federais.

Identidade

O pacote da falta de cuidados atrelados à transexualização inclui a ausência de orientação para que as novas mulheres consigam adotar o nome social em documentos como a identidade. O hospital afirma que assessora as pacientes após a cirurgia, mas na prática isso não acontece. De acordo com relatos das próprias transexuais, as recomendações do HC não são as mesmas para todas as mulheres. Tamires Gomes, 37, fez a cirurgia em dezembro mas ainda não teve acesso ao laudo médico indicando sua condição de transexual atendida pelo serviço público. "“Fui no HC no começo de março para uma consulta, mas informaram que não havia médico. Também não consegui falar sobre o laudo".” Este documento, indicando que um psiquiatra encontrou na paciente um distúrbio de identidade, é importante para que o processo seja iniciado e corra sem grandes complicações. Joicy até hoje carrega consigo a identidade onde lemos João Batista da Silva no lugar da assinatura. Está há anos tentando dar conta da burocracia que acompanhou todo seu processo de transformação em mulher. Perdeu a conta das vezes que foi ao Fórum de Alagoinha tentando resolver a questão. Juliana procurou um advogado particular. Ele solicitou o laudo do psiquiatra e uma xerox do prontuário para apresentar à Justiça. "“Falei com Inalda (Lafayette, psicóloga que acompanha as transexuais no HC) e ela conseguiu o laudo, mas não o prontuário. Disseram que só passariam se a Justiça pedisse".”

A falta de cuidado do hospital em relação às pacientes transexuais alertou entidades como a Articulação e Movimento para Travestis e Transexuais de Pernambuco (Amotrans) e o Núcleo de Pesquisa em Gênero e Masculinidades da Universidade Federal de Pernambuco (Gema/UFPE), ambas incluídas no Fórum LGBT de Pernambuco. Este vem colhendo informações para entrar com um pedido de audiência pública no Ministério Público. "“Temos recebido algumas denúncias de procedimentos irregulares na readequação sexual realizada pelo HC"”, diz Tiago Corrêa, do Gema.

Cirurgia fora da lista oficial do SUS

Realizadas há 11 anos, as cirurgias de redesignação sexual do Hospital das Clínicas (HC) não fazem parte, oficialmente, da rede do Sistema Único de Saúde (SUS). No local, o processo de transexualização é feito com a verba que o sistema destina para procedimentos de alta complexidade (o tratamento, que dura mais de dois anos, custa cerca de R$ 1,3 milhão por paciente). No Brasil, apenas quatro hospitais públicos atendem transexuais masculinos para femininos através do SUS: Hospital das Clínicas de Porto Alegre, Hospital Universitário Pedro Ernesto (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), Fundação Faculdade de Medicina/Instituto de Psiquiatria (São Paulo) e Hospital das Clínicas de Goiás.

O Hospital das Clínicas pernambucano não foi habilitado pelo Ministério da Saúde para as cirurgias porque não atende aos pré-requisitos exigidos pelo SUS. O texto voltado para o tratamento de transexuais é claro: o acompanhamento das pacientes não pode se restringir ao diagnóstico e à intervenção cirúrgica, tem que dar conta da saúde integral das transexuais, com ênfase na reinserção social. Dentro desse processo, está incluída a terapia hormonal, havendo necessidade de assistência endocrinológica. "“Os exames devem ser realizados com intervalo máximo de um ano, a fim de reduzir danos por efeitos colaterais do uso da medicação, e para viabilizar diagnósticos precoces em relação a câncer e baixa densiometria ósseos”", diz o texto do SUS, que recomenda acompanhamento pós-cirúrgico de pelo menos dois anos. Psicólogos, assistentes sociais, psiquiatras e cirurgião são alguns dos profissionais que integram a equipe multidisciplinar.

Cotado para assumir a chefia das cirurgias de redesignação sexual do HC, o urologista Rogerson Tenório de Andrade integra, desde 2005, a equipe de Sabino Pinho. Ele espera que a direção do HC finalize sua transferência do Hospital Otávio de Freitas, que é estadual, para o HC gerido pelo governo federal. Apesar de ainda não estar no cargo, o médico encaminhou à direção do hospital projeto de criação de um Ambulatório de Sexualidade, no qual as transexuais também seriam atendidas. Ciente das dificuldades das pacientes que procuram o serviço, ele solicita a criação de um núcleo com fonoaudiólogos, endocrinologista, psiquiatra. O professor adjunto de ginecologia da UFPE José Carlos de Lima substituirá, na especialidade médica, o cirurgião Sabino Pinho. "“O Conselho Federal de Medicina (CFM) exige vários especialistas para atender estes pacientes".” Uma das transexuais que aguarda há dois anos a cirurgia e preferiu não se identificar disse que, em sua última visita ao hospital (dia 17) foi informada de que também não havia psiquiatra para atender novas pacientes. Há cerca de um ano, o serviço não conta com atendimento psiquiátrico. Os médicos Roberto Faustino e João Ricardo não foram substituídos.

Urologista do Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe/RJ), um dos mais completos do serviço público nas cirurgias em transexuais, Eloísio Alexsandro diz que atendimento com intenção de cirurgia de transgenitalização, privado ou público, deve seguir recomendações da resolução 1.955/2010 do CFM. A prática no SUS segue a portaria 1.707/2008 do Ministério da Saúde e está fundamentada na resolução do CFM. "“Esta portaria determina que a equipe multidisciplinar tenha no mínimo um cirurgião reconstrutor genital, um médico prescritor, psicólogo, psiquiatra e assistente social".” A equipe que realiza cirurgias de transexualização no HC, até o momento da aposentadoria de Sabino Pinho, era formada por urologista, ginecologista e dois residentes, de acordo com Rogerson Tenório de Andrade. A psicóloga Inalda Lafayette integra a equipe.

Outra diferença entre o Hupe e o HC está na orientação em relação aos novos documentos. No centro de referência, assim que as transexuais recebem os laudos de psicólogos e psiquiatras atestando sua condição transexual, são encaminhadas à defensoria pública do Rio de Janeiro para alterar pré-nome e gênero. Não precisam esperar os dois anos de tratamento psicológico nem a cirurgia para iniciar a mudança de nome.

Especial mostra a dificuldade

A falta de acompanhamento mais eficiente e mesmo humano entre as pacientes que tentam ou já se submeteram a cirurgia de redesignação no HC foi um dos fios condutores da reportagem "O Nascimento de Joicy", publicada pelo Jornal do Commercio em abril de 2011. A série, que durou três dias, foi baseada na transexual Joicy Melo, 51 anos. Em cinco meses, foi possível acompanhá-la a várias visitas ao serviço de ginecologia do hospital. Detalhes em http://www2.uol.com.br/JC/especial/joicy


Disponível em http://www.ufpe.br/agencia/clipping/index.php?option=com_content&view=article&id=4655%3Ao-que-nao-deu-certo-para-elas&catid=34&Itemid=122. Acesso em 09 fev2014.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Aspectos bioéticos da cirurgia de redesignação sexual sob a ótica da realização do direito fundamental à saúde

Maria Claudia Crespo Brauner; Laíse Graff
Direitos Fundamentais & Justiça
Ano 6, Nº 18, jan/mar. 2012

Resumo: Este estudo introduz alguns aspectos bioéticos da cirurgia de redesignação sexual destinada ao tratamento às pessoas transexuais, sob a ótica da concretização do direito fundamental à saúde. O sofrimento psíquico vivenciado pelos transexuais decorre especialmente do conflito entre suas características anatômicas e sua identidade sexual. Considerando a transexualidade como um transtorno capaz de gerar significativo sofrimento, cabe questionar sobre as formas e os limites da intervenção médica para seu tratamento, em especial a cirurgia de reatribuição sexual, tomando como base princípios e conceitos oferecidos pela Bioética. Estando reconhecida como doença diagnosticável e passível de tratamento, trata-se sobre a disponibilização de tratamento aos transexuais como forma de realização do direito à saúde.



terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Diferenças cerebrais entre homens e mulheres justificam habilidades e comportamentos distintos?

Joel Rennó Junior
07.janeiro.2014

Do ponto de vista médico, há estruturas cerebrais com morfologia e funcionalidade diferentes entre o SNC (Sistema Nervoso Central) do homem e da mulher. Em parte, os comportamentos, atitudes, pensamentos, habilidades e sentimentos femininos podem ser distintos aos dos homens por tais diferenças anatômicas e funcionais entre os cérebros deles. Esse é o papel das neurociências na atualidade, apontar tais diferenças, a fim de que haja intervenções terapêuticas distintas e até medidas preventivas.

“Neurocientistas e a sociedade têm que ter muito cuidado ao fazerem as interpretações de tais diferenças, sem reducionismos perigosos. Pode haver uma distorção ao fazer reforços de preconceitos existentes contra a mulher, justificando certas habilidades diferenciadas como um sinônimo de inferioridade”       

Por que essa diferença entre o cérebro do homem e da mulher?
Sabemos que grande parte dessas diferenças decorre da exposição diferenciada do cérebro feminino ao hormônio estrogênio, já no intraútero, na gestação. O cérebro feminino vai se moldando e se desenvolvendo de uma forma distinta ao masculino já no intraútero.

Imagens da ressonância magnética funcional realizadas por neurocientistas apontam, entre inúmeras outras diferenças (poderíamos citar dezenas delas encontradas na última década):

1. O cérebro das mulheres é aproximadamente 10% menor que o dos homens, porém, possui maior número de conexões entre as células nervosas. O corpo caloso que faz a comunicação entre os hemisférios cerebrais direito e esquerdo costuma ser mais desenvolvido nas mulheres. Isso leva a uma melhor integração de diferentes estímulos entre os dois lados do cérebro feminino. Geralmente, as mulheres fazem várias tarefas simultâneas como cozinhar, ler, cuidar da casa e dos filhos de forma mais eficiente que os homens.

2. O cérebro esquerdo é bem mais desenvolvido entre as mulheres;

3. O cérebro direito mais desenvolvido entre os homens – contrariamente ao que pensa o grande público – sabe-se ser o hemisfério esquerdo denominado “científico”, analítico, racional, verbal, temporal, enquanto o hemisfério direito é dito “artístico”, sintético, emocional, não verbal e espacial, isso sob a influência direta dos hormônios sexuais (testosterona e outros).

4. A mulher está mais sujeita a sentir depressão do que o homem e, quanto a isso, existe uma relação direta com a baixa produção da substância química cerebral, a serotonina, no cérebro feminino. As oscilações dos níveis de estrogênio em períodos críticos do ciclo reprodutivo feminino como o pré-menstrual, o pós-parto e a perimenopausa (período que se inicia cerca de 5 anos antes da menopausa e vai até um ano após) são “gatilhos” para a depressão feminina mais frequente, cerca de duas vezes.

5. O cérebro masculino é voltado para a compreensão, enquanto o feminino é programado para a empatia (cuidado com a interpretação).

6. As imagens mostraram que o lobo parietal inferior, área envolvida em atividades matemáticas, é maior no cérebro deles. Portanto, os homens costumam ser melhores em tarefas matemáticas, enquanto as mulheres se saem melhor em atividades verbais (cuidado com a interpretação!).

7. As mulheres são mais emotivas e expressam com mais facilidade seus sentimentos do que os homens, porque o sistema límbico delas é mais desenvolvido do que o deles (cuidado com a interpretação!).

Interpretação entre diferenças de gênero deve evitar reducionismo perigoso

Os neurocientistas e a sociedade têm que ter muito cuidado ao fazerem as interpretações de tais diferenças, sem reducionismos perigosos. Pode haver uma distorção ao fazer reforços de preconceitos existentes contra a mulher, justificando certas habilidades diferenciadas como um sinônimo de inferioridade.

Lembro-me do discurso infeliz de um antigo reitor da Universidade de Harvard, nos EUA, destacando que as mulheres não seriam tão eficientes e brilhantes no campo das Ciências Exatas. Isso não faz tanto tempo assim, é relativamente recente. No passado, até foram publicados artigos sobre tais diferenças em revistas científicas consagradas como Science and Nature, amplificando e reforçando a suposta inferioridade feminina. Por coincidência, muitos dos cientistas da época eram homens.

Nunca podemos também deixar de levar em consideração o ambiente e a cultura em que o homem e a mulher estão inseridos. Na minha prática clínica, conheço homens sensíveis, afetuosos, que se saem melhor em atividades verbais do que matemáticas ou lógicas. Por outro lado, conheço mulheres que são pesquisadoras brilhantes, exímias matemáticas e com afeto raso e pouco contato verbal.

Biologia e genética não determinam tudo sobre comportamento e habilidades humanas

A biologia e a genética, embora relevantes, não são os únicos determinantes do comportamento e habilidades humanas. Por isso, pessoalmente, eu detesto piadas ou jocosidades a respeito de tais diferenças porque, no fundo, há uma expressão (até inconsciente) de nossos preconceitos e projeções. Isso, é claro, pode ser oriundo tanto dos homens quanto das mulheres. Já ouvi mulheres afirmando “acho aquele cara esquisito, sensível e romântico, pouco decidido e muito delicado”.

Ouvi também comentários de homens do tipo “aquela ali é uma empresária agressiva, racional e mal amada”. Ambos comentários trazem no seu bojo a mensagem que a neurociência jamais quer que tais diferenças se transformem em julgamentos ou justificativas estigmatizadoras dos gêneros, sejam masculinos ou femininos. Até porque alguns cientistas afirmam que cerca de 20% dos homens têm cérebros “femininos” e até 10% das mulheres têm cérebro “masculinizados”.

No próprio campo da sexualidade humana, observamos mudanças do comportamento sexual da mulher, mais arrojada, determinada, exigente e erotizada. Apesar de alguns determinantes biológicos, isso ilustra o quanto o ambiente e as forças sociais podem interferir. O objetivo deve ser sempre o de aprimorar as competências tanto dos homens quanto das mulheres, nunca aprofundar abismos pré-existentes.

Muitos me perguntam por que as mulheres criam discussões em casa, o que elas têm, com relação ao gênero feminino, que contribui para os conflitos de casal. Não vejo que os conflitos entre os casais sejam decorrentes de questões intrínsecas do gênero como as pessoas costumam apregoar – pelo menos na maior parte dos contextos. O principal fator realmente costuma ser a expectativa que se projeta na figura do outro, geralmente, sempre superdimensionada no início de muitos relacionamentos. A fase de encantamento acaba terminando e daí vem a frustração.

Alguns indivíduos, independentemente de serem homens ou mulheres, costumam projetar no outro verdades ou conceitos baseados em seus próprios valores. A figura idealizada de qualquer pessoa sempre acaba gerando consequências negativas. Ninguém, por melhor que seja, vai ser capaz de sustentar aspectos arquetípicos de um grande herói, infalível em sua essência. Por melhor que sejamos, nossa natureza humana pode se tornar frágil em algum momento.

Entre as questões que costumam gerar mais conflitos entre homens e mulheres, incluem-se a traição, o sentimento de rejeição de um ou de outro, a educação e os valores ensinados aos filhos, religião ou crença, brigas entre as famílias, dependência econômica e sexo. Não acredito ser possível classificar as mais típicas de um gênero ou de outro, tudo vai depender da dinâmica do casal e da própria família adotada em sua convivência diária, na capacidade individual de cada um poder crescer e se transformar.

Na sociedade atual, não vejo questões tão específicas ou típicas de um sexo em relação ao outro, há padrões mutáveis e imprevisíveis, devido aos múltiplos papéis envolvidos.


Disponível em http://blogs.estadao.com.br/mentes-femininas/. Acesso em 10 fev 2014.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Escócia aprova casamento entre pessoas do mesmo sexo

Aline Pinheiro
5 de fevereiro de 2014

Em um futuro próximo, os homossexuais poderão se casar na Escócia. O Parlamento escocês aprovou, nesta terça-feira (4/2), projeto de lei que autoriza o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo. Até hoje, os gays podiam apenas formar união civil. A lei agora depende de regulamentação do governo para começar a valer.

Com a mudança, a Escócia se torna o 11º país europeu a permitir que os homossexuais se casem. Os outros 10 estados são: Bélgica, Dinamarca, Islândia, Holanda, Noruega, Portugal, Espanha, Suécia, Inglaterra e França. Os dois últimos aprovaram a união gay no ano passado. Além dos que permitem o casamento, outros 16 países reconhecem a união estável entre duas pessoas do mesmo sexo.

Pelo texto aprovado na Escócia, os gays poderão se casar tanto nos cartórios como em instituições religiosas, desde que estas concordem com a união homossexual. A nova legislação também autoriza que transexuais casados mudem de sexo sem a necessidade de se divorciar antes. Até então, se um homem casava com uma mulher e depois se submetia a cirurgia de mudança de sexo, ele precisava assinar o divórcio antes de conseguir atualizar seus documentos.

A proposta do governo de permitir o casamento entre gays foi divulgada em setembro de 2011, quando foi aberta consulta pública sobre o assunto. Durante três meses, organizações civis e a sociedade como um todo puderam opinar sobre o assunto. E o resultado não foi nada animador. Das 76,8 mil respostas enviadas ao governo, 67% se manifestaram contra a união gay.

Em julho de 2012, no entanto, o governo escocês anunciou que, mesmo contra a vontade de uma parte da população, o casamento entre homossexuais seria liberado. Na ocasião, a vice-primeira ministra, Nicola Sturgeon, explicou que garantir a todos o mesmo direito era a única forma de sustentar um país justo e igualitário. Um ano depois, em junho de 2013, o projeto de lei autorizando a união gay foi apresentado ao Parlamento.


Disponível em http://www.conjur.com.br/2014-fev-05/escocia-aprova-casamento-entre-duas-pessoas-mesmo-sexo. Acesso em 06 fev 2014.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Bairros gays são campeões de aumento de renda nos EUA

João Pedro Caleiro
04/02/2014

É americano e quer morar em um lugar onde a renda vai aumentar? Se mude para um "gayborhood".

A conclusão é de um estudo apresentado no início do ano no encontro da Associação Americana de Economistas.

Os pesquisadores Matthew Ruther, da Universidade do Colorado, e Janice Madden, da Universidade da Pensilvânia, analisaram dados do censo de 38 grandes cidades dos Estados Unidos divididas em pequenos setores.

Eles perceberam que as micro-regiões que tinham mais casais de homens gays no ano de 2000 experimentaram um crescimento especialmente maior da renda familiar (e, consequentemente, dos preços de imóveis) ao longo da década seguinte.

No Nordeste e Oeste do país, houve também um crescimento populacional expressivo naqueles bairros.

Nenhuma das relações foi verificada em bairros com mais casais de lésbicas - que tem quatro vezes mais chance de ter filhos e renda em média 20% menor em comparação com os casais de homens.

O estudo mostrou também que de forma geral, os gays tendem a ser atraídos por bairros com maior taxa de vacância e habitação mais antiga. É possível, portanto, que a relação verificada entre gays e renda ande em paralelo com outras dinâmicas do mercado imobiliário.

Mitos

Os números não confirmaram outras teses levantadas por estudos anteriores. Até pouco tempo atrás, era difícil encontrar dados amplos e confiáveis sobre a distribuição dos gays na cidade.

De acordo com a análise de Ruther e Madden, eles não ficam cada vez mais concentrados em determinadas zonas com o passar do tempo, apesar de terem uma preferência maior por bairros centrais em todas as regiões do país, com exceção do Sul.

O estudo não encontrou muita relação entre onde os casais de homens e de mulheres decidem morar.

Eles também não apresentam uma preferência particularmente maior por bairros com maior diversidade racial, apesar do padrão de segregação dos homossexuais dentro da cidade ser curiosamente similar ao dos afro-americanos.


Disponível em http://exame.abril.com.br/economia/noticias/bairros-gays-sao-campeoes-de-aumento-de-renda-nos-eua?page=1&utm_campaign=news-diaria.html&utm_medium=e-mail&utm_source=newsletter. Acesso em 04 fev 2014.