quinta-feira, 27 de março de 2014

Conectados, porém sozinhos

Andréa Dietrich
18 mar 2013

Você já parou para pensar que os nossos momentos de reflexão já são quase raros em nossas vidas? E deveriam ser fundamentais para refletirmos sobre nossas atitudes, nossos desafios e sobre nós mesmos. Durante o trânsito parado, no elevador, num restaurante, numa reunião, em todos os momentos lá estamos nós, conectados. Num encontro com amigos, num jantar com a família e lá estamos nós, conectados – e às vezes vemos a mesa toda nos seus celulares.

O que está por trás desse comportamento? Uma necessidade de compartilhar e mostrar somente os momentos onde estamos felizes, realizados e bem sucedidos. Uma imagem programada sobre o que queremos passar. Uma necessidade de editar o que pensamos e falamos, evitando o espontâneo do ‘ao vivo’. É o fenômeno do torpedo, mais textos e menos diálogo, a necessidade de estar em vários lugares ao mesmo tempo, sendo mais superficial nas relações.

A tecnologia não está mudando somente a forma com que fazemos as coisas, mas também o que somos, o que estamos nos tornando. Segundo a psicóloga, estamos exigindo cada vez mais da tecnologia, exigindo que nossos celulares entendam exatamente o que queremos, mas menos do que queremos das nossas relações pessoais. Ao invés de sentirmos para depois compartilharmos, nós compartilhamos o que queremos sentir.

Tudo isso nos faz refletir o quanto as novas gerações estão evoluindo sem conseguir se conectar ao vivo um com o outro. E perdendo uma das habilidades mais importantes para qualquer indivíduo, a convivência em grupo. Essa frase me fez lembrar do caso polêmico do home office abolido no Yahoo e a frase da CEO da empresa dizendo que muitas das melhores decisões das empresas acontecem num cafezinho, numa conversa de corredor, conhecendo pessoas. O mundo isolado das tecnologias, do home office, começa a ser discutido para trazer de volta a necessidade do contato, do diálogo, do jogo de futebol no campinho da esquina.

Eu mesma já escrevi um post no ano passado contra argumentando essa questão, mas, depois de ser mãe, começo mesmo a me preocupar com a individualidade e a vida programada às quais minha filha pode estar exposta daqui em diante.

Temos que aprender a equilibrar nossas vidas, valorizando aquilo que nunca vai conseguir ser apagado: nossas palavras, nossas memórias, nossas risadas, nossos amigos de verdade.


Disponível em http://www.meioemensagem.com.br/home/marketing/ponto_de_vista/2013/03/18/Conectados-porem-sozinhos.html. Acesso em 23 mar 2014.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Personalidades nuas: um estudo sobre a nudez feminista

Nayara Matos Coelho Barreto
Universidade Federal Fluminense UFF Niterói/RJ
XXXIV congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação
Recife, PE – 2 a 6 de setembro de 2011

Resumo: O presente artigo pretende investigar a configuração atual das representações do corpo feminino na mídia, examinando os usos deste corpo nu e a influência do ideal da arte feminista e suas transformações nas ultimas décadas. Nos anos 1960, o movimento feminista buscava ampliar as liberdades de gênero e reconfigurar o lugar da mulher na sociedade. Desde então a mídia de massa é uma das esferas que contribuiu para a configuração de novas amarras para a mulher contemporânea. Por isso, este artigo questiona de que modo a exibição do corpo nu poderia operar politicamente num sentido capaz de resistir à moral vigente, num contexto de constante espetacularização dos corpos, especialmente o da mulher. Para problematizar isso, apresento um breve percurso histórico sobre a arte feminista e sobre sua influencia nas novas práticas de exposição corporal, tais como o Teatro Burlesco, reconfigurado no final do século XX, e o site norte-americano Suicide Girls.com.



terça-feira, 25 de março de 2014

Estudo mapeia economia ilegal de oito cidades americanas

João Pedro Caleiro
17/03/2014

Em 2010, o Departamento de Justiça americano contratou o Urban Institute para mapear o tamanho da economia ilegal da prostituição nos Estados Unidos.

Foram escolhidas 8 cidades: San Diego, Seattle, Dallas, Denver, Washington, Kansas City, Atlanta e Miami.

A ideia era levantar pela primeira vez dados confiáveis para entender como a economia da prostituição funciona e como ela se relaciona com outras atividades ilegais, como o tráfico de armas, de drogas e de pessoas.

Os resultados acabam de ser divulgados: em 2007, o dinheiro movimentado pela economia subterrânea do sexo variou entre US$ 40 milhões em Denver e US$ 290 milhões em Atlanta.

Como participação no dinheiro que circula na cidade como um todo, isso equivale a 0,5% em Denver e 1,6% em Atlanta.

Apesar da diferença no tamanho dos mercados, a renda dos exploradores de prostituição nas duas cidades é curiosamente similar: em torno de 33 mil dólares por semana - 6 vezes mais do que em Kansas City, por exemplo.

Denver também tem o menor mercado ilegal de drogas (US$ 63,9 milhões), praticamente um terço do praticado em Dallas - que movimentou US$ 191 milhões em 2007. Dallas também lidera no mercado ilegal de armas, seguido por Washington DC e Miami.

Veja na tabela as estimativas com base no ano de 2007 (em milhões de dólares):

 SexoDrogasArmas
Atlanta290117146
Dallas98,8191171
Denver39,963,947,4
Miami23595,7118
San Diego96,696,347,7
Seattle11287,460,1
Washington DC103103160

Comportamento

Só o tráfico internacional de pessoas para exploração comercial do sexo movimentou US$ 28 bilhões no mundo em 2005. O objetivo de levantamentos como esse é o de fornecer dados empíricos e recomendações para melhorar o combate a este tipo de problema.

Com exceção de Nevada, onde fica Las Vegas, a exploração comercial da prostituição é ilegal em todos os estados americanos.

Apesar disso, praticamente 10% dos cafetões nas cidades pesquisadas aceitam cartão de crédito ou débito - e muitos usam atividades legítimas como fachada para os negócios ilegais.

Apenas 13,7% declararam gasto com preservativos - na lista de despesas, lideram carros e transporte (65,8%), além de moradia (64,4%) e roupas para as mulheres (45,2%).

47,9% das transações são precificadas com base no tempo e apenas 12,3% com base nos atos praticados. O preço varia entre US$ 5 e S$ 1 mil, mas fica mais concentrado na faixa entre US$ 150 e US$ 300 por hora.

Dinâmicas

O estudo não encontrou grande conexão entre o mercado de tráfico de armas e de prostituição. Com as drogas, é outra história: um em cada quatro cafetões haviam trabalhado como traficante no passado, e 18% continuavam a fazê-lo.

Outra conclusão do Urban Institute é que o advento da internet mudou radicalmente a dinâmica do mercado ilegal de sexo.

Ao mesmo tempo que aumentou as possibilidades de recrutamento e divulgação, intensificou a concorrência e tornou os exploradores do mercado de sexo mais vulneráveis à detecção pelas autoridades - que ainda precisam aproveitar melhor essa oportunidade.


Disponível em http://exame.abril.com.br/economia/noticias/estudo-mapeia-economia-ilegal-de-8-cidades-americanas?page=1. Acesso em 23 mar 2014.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Walcyr Carrasco revela bastidores da negociação sigilosa para exibir o beijo gay de ‘Amor à vida’

Zean Bravo
09/02/14

Foi na noite de Natal, acompanhado de sua família, “bem classe média”, que Walcyr Carrasco percebeu de vez a existência de uma torcida para que Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso) ficassem juntos em “Amor à vida”. Meses antes, o autor já havia decidido quebrar um tabu com o folhetim que marcou a sua estreia no horário nobre da Globo: levar ao ar um beijo de amor entre dois homens no último capítulo. Exibido no dia 31, o desfecho da trama mostrou o tal carinho entre o sushiman e o vilão regenerado, personagens alçados ao posto de casal principal da novela.

O beijo que entrou para a história das telenovelas brasileiras foi resultado de um romance muito bem pensado pelo autor para angariar a aceitação do público. Félix e Niko estão entre os destaques de um novelão de 221 capítulos marcado por muitas reviravoltas e personagens que mudaram radicalmente de comportamento. Ao longo dos últimos meses, Walcyr, de 62 anos, vivenciou a rotina de escrever — sempre tarde da noite, como prefere — o programa mais visto e comentado da TV.

‘Gravamos várias versões do beijo gay: uma conservadora, uma moderada e uma agressiva. Foi assim que me expressei para explicar o que queria. Numa linguagem de investimento financeiro. Na vida bancária, sempre opto pelo moderado, e na novela foi assim também’

Jornalista, autor de novelas e peças de teatro, com 60 livros lançados, ele chegou a dormir em cima do teclado ao criar histórias de “Amor à vida” “praticamente dopado” por remédios para aliviar a dor que sentiu após a extração e o implante de cinco dentes, em meados do ano passado. Dizendo-se de luto pelo fim da novela, Walcyr fazia a primeira refeição do dia às 15h30 quando recebeu, na semana passada, a Revista da TV em seu apartamento carioca — ele vive entre Rio e São Paulo.

O autor detesta acordar cedo e mostra sua face “gente como a gente” ao comentar o alto custo de vida das duas cidades onde vive. Ele ainda não se desligou do recente trabalho. Domingo passado, jantou com Mateus Solano e sua mulher, a atriz Paula Braun, também do elenco da novela, num restaurante do Leblon. O ator era um dos poucos que já sabiam sobre o beijo, planejado sob total sigilo.

‘Félix não foi autobiográfico. O meu pai me amava e sempre me incentivou’, diz Walcyr

Nesta entrevista, parte da série com autores de novelas iniciada pela Revista da TV em janeiro, o criador de tramas como “O cravo e a rosa” (2000), “Caras & bocas” (2009), em reprise atualmente nas tardes da Globo, e da mais recente versão de “Gabriela” (2012), conta detalhes sobre a aprovação e a gravação da cena do beijo. Ele esclarece boatos, como a fama de ser vingativo com atores que não seguem à risca o texto que escreve. E comenta ainda os sucessos e os percalços da carreira como autor de novelas, iniciada com a “Cortina de vidro”, exibida pelo SBT em 1989.

Por que deixou o beijo para o final da novela?
Sempre quis deixar para o último capítulo porque sabia que seria uma bomba, algo que iria surpreender a sociedade.

Como surgiu a iniciativa de exibir a cena?
A imaginação de todo mundo é maior do que a realidade. Não tive nenhum problema em relação ao beijo. Eu tinha uma história e, há quatro meses, fui ao diretor-geral de entretenimento (Manoel Martins) e falei: “Acho que está na hora desse beijo acontecer porque a história está pedindo”. Naquele momento, o casal Félix e Niko ainda não tinha acontecido com força. Mas a questão da família estava presente entre Niko e Eron. O beijo poderia ter sido entre o Thiago e o Marcello Antony. Eu propus um beijo de despedida entre o casal, algo do dia a dia, de pessoas que estão juntas e dão um beijo quando um deles vai trabalhar.

Já imaginava que o beijo seria aprovado quando foi conversar com a direção da emissora?
É importante dizer que essa não é uma decisão que se toma sozinho. Isso afeta toda a estrutura da Globo. Mas a emissora vive um processo de atualização neste momento de sua história e está buscando uma sintonia fina com a sociedade. Dois dias depois, o Manoel me respondeu com um OK, caso a cena fosse feita dessa forma que falei.

A novela abordou diferentes formações familiares. Por que escolheu mostrar o casal gay nesse contexto?
Brinco muito que o movimento LGBT (Lésbicas, gays, bissexuais e travestis) busca cada vez mais a família, o casamento. Todos os valores que, de certa forma, compõem a vida da sociedade. Por isso propus o beijo dentro de um contexto familiar.

A emissora fez algum tipo de pedido?
A postura da emissora era de manter sigilo e respeito. E a minha também.

Essa história de que você recebeu carta branca da emissora para decidir se teria ou não beijo é verdade?
Hoje em dia há uma grande parcela da imprensa extremamente fantasiosa e reacionária. Principalmente a feita na internet, que cria um movimento de especulação em cima das novelas. E que não é do bem. Essa história de carta branca nunca existiu. Foi uma invenção. O que houve é fruto de uma decisão que eu, como autor, levei para a empresa. Mas se falasse com a imprensa naquele momento sobre isso, a especulação teria sido ainda mais absurda.

Como conseguiram manter o sigilo?
Quase ninguém sabia que haveria o beijo. Combinei pessoalmente com o Mauro Mendonça Filho (diretor-geral): “Quando aparecer tal sinal no texto, será o beijo”. Quem quer que tenha tido acesso ao capítulo não notou. O código foi uma linha de asteriscos.

Quantas versões do beijo foram gravadas?
Gravamos várias versões: uma conservadora, uma moderada e uma agressiva. Foi assim que me expressei para explicar o que queria. Numa linguagem de investimento financeiro. Na vida bancária, sempre opto pelo moderado, e na novela foi assim também. Achava que não poderia ser a versão conservadora, que era pouco mais do que um selinho, nem a agressiva. Por um simples fato. Eles estavam se despedindo, não indo para a cama. Esse outro beijo (de língua) é dado quando você está indo para a cama. Não era a situação. Foi gravado, sim, até para a gente ter opções. Mas sabia que não seria esse. Nem sei dizer quantas vezes eles gravaram porque fizeram em vários ângulos. Tinha: opção A, com meio corpo, A só com rosto, e por aí vai...

Quis ver a cena antes?
Claro. Até para discutir qual seria o beijo que representaria a situação que a gente queria. A decisão foi unânime. Eu queria um beijo tradicional, mas de amor. Era essencial. Era um momento do casal que não pressupunha um beijo mais intenso. Acho que o amor promove aceitação, e a novela falava disso. Mas a gente também precisava da aceitação do público.

Quando foi a escolha?
No dia do último capítulo. Tenho horror de acordar cedo, mas tinha que ver o quanto antes porque a cena precisava ser editada. Acordei às 8h, saí de casa um caco. Mauro, que dirigiu a cena, e o Wolf (Maya, diretor de núcleo) estavam presentes. Vimos juntos e levamos nossa opção à direção. É um assunto sério. Quando você faz uma coisa pioneira, tudo tem que estar de acordo com a emissora. O Manoel Martins é o diretor de entretenimento e tinha que participar. Ele fechou com o que a gente tinha fechado.

Existia entre vocês a sensação de que fariam História?
Eu tinha o sentimento de que ia fazer História. Sei que daqui a 50 anos em qualquer livro sobre a TV brasileira, vai ter esse beijo. Tenho uma relação mais próxima com o Mateus, gosto muito dele como pessoa também. Quando falei para ele, em segredo, disse que entraria para a história da TV.

Quando conversou com o Mateus já havia decidido que Niko ficaria com Félix?
Sim, mas já tem um tempinho que contei a ele. A história estava em branco quando comecei a ver a questão do beijo, mas foi tomando outros rumos. Niko tinha se separado do Eron. Naquele instante o Félix tinha ficado pobre e começado a se redimir.

Você construiu o romance de Félix e Niko para torná-los o casal principal da trama?
A estrutura do romance deles é a de um namoro hetero de novela. Eles se conhecem, brigam sempre no final do papo. De repente, Eron faz uma fofoca para separar os dois. Niko, que cuida de duas criancinhas com todo amor, acredita que Félix está com outro, sofre. Tudo proporcionou um desfecho natural. As pessoas já viam o romance com tranquilidade.

Quando percebeu que tinha acertado?
Tive certeza absoluta de que estava no caminho certo na noite de Natal, em família. A gente faz um Natal bem classe média, com amigo secreto... E, de repente, na sala, a discussão das mulheres era Félix e Niko. A minha sobrinha Andrea disse: “Vocês têm noção de que há 4 ou 5 anos a gente não estaria discutindo isso?”. E eles não estavam falando da novela porque eu estava lá. Não conto nada da trama nem para a família.

Como define os rumos da história?
Sento e assisto à novela todas as noites, como se fosse o público. E desenvolvo um diálogo com os atores através do que vejo. Danielle Winits, por exemplo, foi hábil. Viu por onde iria brilhar e brilhou. Acho que o beijo aconteceu porque tínhamos dois astros nos papéis. Tanto que, ao procurar a mulher para fazer a Amarilys, pensei na Danielle. Ela faria bem o que chamo de “bruxa de bicha”, ela tem essa cara.

Costuma levar em consideração o que é dito na web?
Eu não me acostumei com isso. O autor não pode dar ouvido ao que falam. A internet ainda não expressa a opinião da totalidade da população brasileira. Mas dá para acompanhar a repercussão de uma cena. Durante a novela, a Amarilys estourava na internet quando aparecia. Mesmo que sejam tuítes contrários, é sinal de que a personagem pegou.

E as cobranças de que muitas das tramas de “Amor à vida” não eram verossímeis?
No Twitter, as pessoas escrevem: “Essa novela só tem maldade, e as coisas não dão certo”. Como se a TV fosse a culpada. E a literatura? Do que se trata? Da alma humana, das contradições, dos desencontros... A novela tem vilões e histórias de amor que não dão certo, como na literatura. Só o Pequeno Príncipe é bonzinho o tempo todo.

Muitos acusaram o texto da novela de ser didático em alguns momentos...
A novela se passa num hospital, e achei que tinha que trazer mensagens sociais, como a doação de órgãos. Mas não se pode confundir a novela com uma aula ou um documentário.

Por que abordar temas variados, como alcoolismo e o vírus HIV, sem aprofundar essas discussões?
Não dava para explorar todos os temas. Eu quis tocar neles, falar que existem e, talvez, causar um ponto de curiosidade.

“Amor à vida” foi esticada e terminou com 221 capítulos. Foi sofrido?
Não tenho problema com isso. Adoro escrever, seja o que for. Seja livro, um texto para teatro... E adoro escrever novela. “Caras & bocas” teve 232 capítulos. “Morde & assopra” foi a única que não foi aumentada e teve 180. O projeto inicial de “O cravo e a rosa” era de 90 capítulos e acabou com 221. Lembro que tive que criar um hotel para ter um cenário para botar mais personagens.

Como é o seu processo de criação?
Tenho uma velocidade muito grande para escrever. Sento para criar o capítulo à noite, após a exibição da novela. Escrevo em 4 horas, no máximo. Não gosto de acordar cedo. Durante o dia penso na novela. Preciso de um período de calmaria. Não faço escaleta. O meu método de trabalho é o caos. Tive agora quatro colaboradores. O capítulo vai montado, mas deixo uns buracos de cenas para eles escreverem.

É verdade que não tolera ator que altera seu texto?
Eu odeio (diz, com ênfase nesta palavra) ator que usa caco. É uma prova de que ele não é bom, que não consegue botar intenção naquilo que está escrito e precisa usar muletas, falar do seu jeito. Se um ator diz o texto sempre do jeito dele, faz tudo sempre igual.

O que faz com os atores que usam cacos?
Eu deixo de me interessar pelo personagem. Houve um caso em que parei de escrever para o ator, que virou quase um figurante.

Você matou a personagem da Marina Ruy Barbosa porque ela não cortou o cabelo?
Neste caso, não tinha o que fazer. Foi o caso de uma atriz que subverteu a trama. A personagem da Marina morreu porque não tive alternativa. Ela tinha uma doença fatal. Para se curar, teria que mostrar as consequências físicas do tratamento. Já tinha dito que ela estava perdendo cabelo em cena.

Voltaria a trabalhar com a Marina?
Não devemos dizer nunca. As pessoas mudam, se transformam. Com atores que apoiaram seus personagens em cacos, não voltei a trabalhar.

Voltando ao início de sua carreira. Como lidou quando a sua parceria com Walter Avancini, inciada em “Xica da Silva”, foi interrompida com a morte do diretor durante “A padroeira” (2001)?
Ele era meu grande parceiro. Na época de “Xica”, a gente se falava todos os dias ao telefone. Sua morte foi um choque e perdi o passo. A novela não foi um fracasso, mas deu menos audiência para a época.

Como foi a experiência de substituir Benedito Ruy Barbosa nos últimos capítulos de “Esperança”, em 2002?
Peguei a novela na sexta e tinha que escrever o capítulo de terça. Era uma trama a que eu não assistia todos os dias. Fiz do meu jeito e acho que Benedito tem uma mágoa grande.

Quais os maiores problemas que enfrentou durante “Amor à vida”?
Tive um problema nos dentes durante a novela, sentia muita dor. Tomava remédio de duas em duas horas e cheguei a dormir em cima do teclado.

Qual é a sua novela preferida?
Sou contra ter novelas ou livros preferidos. A gente é educado para ser sempre o melhor. E você começa a botar a sua vida para disputar com ela mesma. Depois de uma certa idade, você não é o mais bonito da festa, nem o mais bem vestido. Tem que aprender que não é necessário ser o melhor. Nem o melhor autor do Brasil. Cada trabalho dá uma satisfação.

Como lida com o sucesso?
Certas coisas se tornam um vício na vida. E o sucesso não pode virar isso. Aprendi olhando pessoas que entram nessa.

O que pode adiantar da sua próxima novela?
Será uma comédia de época para o horário das 18h. Da próxima vez, quero ter menos personagens para não ficar em dívida com ninguém. Eliane Giardini e José Wilker são grande atores e mereciam mais em “Amor à vida”. Não quero mais ficar em dívida. Grande atores terão papéis para seu tamanho.

Disponível em http://oglobo.globo.com/cultura/revista-da-tv/walcyr-carrasco-revela-bastidores-da-negociacao-sigilosa-para-exibir-beijo-gay-de-amor-vida-11540390. Acesso em 23 mar 2014.

domingo, 23 de março de 2014

Sexo é cola: para alguns

Suzana Herculano-Houzel
março de 2014

Você é convidado a entrar em uma sala desconhecida. No quarto à sua esquerda você vê, à sua disposição, um belo exemplar do sexo feminino com quem você viveu, poucas horas antes, tórridas e repetidas cenas de amor. No quarto à sua direita há uma beldade igualmente atraente, mas que você nunca viu antes. A escolha é toda sua, e ninguém ficará sabendo. Esquerda ou direita?

A cena é um “teste de fidelidade”, e em 80% dos casos, o candidato escolhe a parceira com quem ele havia feito sexo anteriormente. Se os papéis dos sexos se invertem, as fêmeas são ainda mais fiéis ao parceiro anterior, e o escolhem 90% das vezes.

Os candidatos bem que poderiam ser humanos, mas o ser em questão é o arganaz-do-campo (Microtus ochrogaster), um tipo de rato corpulento fortemente social e monogâmico. Arganazes-do-campo vivem em colônias onde os indivíduos vivem agarradinhos. Após o acasalamento, macho e fêmea dividem o mesmo ninho, cuidam juntos da prole, mantêm os filhos adolescentes por perto, preferem a companhia um do outro à de qualquer desconhecido, e os “maridos” tornam-se agressivos em relação a outros machos. Basta uma sessão de sexo e dali para a frente outros candidatos a parceiros serão recusados, no melhor estilo “felizes para sempre” dos contos de fadas.

Em comparação, um primo próximo, o arganaz-montanhês (Microtus montanus), é associal, promíscuo, não busca contato físico com seus semelhantes, e não divide seu ninho. A fêmea cuida sozinha da prole e abandona os filhotes cedo. E novos parceiros serão sempre bem-vindos.

A diferença entre as duas espécies tão próximas está na maneira como seu sistema de recompensa responde ao sexo – mais especificamente, a hormônios liberados no cérebro durante o orgasmo: oxitocina nas fêmeas, e vasopressina nos machos. Indivíduos da espécie monógama possuem numerosos receptores para os hormônios no estriado ventral do sistema de recompensa, que permitem que o sistema seja ativado pelos hormônios liberados no orgasmo. Já o estriado ventral da espécie promíscua é insensível aos hormônios.

O resultado? A ativação do sistema de recompensa pelos hormônios do orgasmo não só estende o prazer do sexo como faz com que o bichinho associe o prazer àquele parceiro em particular, formando um vínculo afetivo com ele (ou ela). Quando o estriado ventral é sensível aos hormônios do orgasmo, o sexo funciona como uma baita cola – e querer estar na companhia do outro, como a gente sabe, é o primeiro passo para a formação de um casal estável.

Mas se o estriado ventral é insensível aos hormônios do orgasmo, como nos arganazes-montanheses, nada feito: o sexo não leva à formação de vínculos afetivos. A não ser que eles recebam uma injeção no cérebro de um vírus que força a expressão de receptores no sistema de recompensa, o que transforma esses animais promíscuos em monógamos. Parece mágica – mas é ciência.

Humanos têm receptores para oxitocina e vasopressina em seu estriado ventral, o que nos coloca no grupo dos arganazes fiéis, ainda que a sensibilidade aos hormônios seja diferente entre indivíduos. De qualquer forma, considerando que nada disso acontece sem uma sessão de sexo, duas conclusões são certas. Primeira: escolha com cuidado quem você leva para a cama – porque periga o seu cérebro acabar mais amarrado do que você gostaria. E segunda: se você ficar mesmo amarrado, garanta a estimulação frequente do sistema de recompensa do (a) seu (ua) parceiro (a). É a maneira mais certa de assegurar o seu acesso permanente. E a sua exclusividade também…


Disponível em http://www2.uol.com.br/vivermente/artigos/sexo_e_cola_-_para_alguns.html. Acesso em 22 mar 2014.