domingo, 13 de abril de 2014

Times for change

Paulo Lima

Infelizmente, já é redundante dizer que as notícias sobre o Brasil têm o péssimo costume de se alternar entre as seções policiais e as colunas sobre escândalos políticos e/ou econômicos. Nas últimas semanas, em especial, oscilamos entre imagens aterrorizantes da cidadã carioca Claudia Silva Ferreira sendo tragicamente arrastada pelo asfalto presa pelas roupas à traseira de um carro da polícia, relatos sobre a onda de lama que vem afogando cada vez mais a maior empresa do País, manifestações tensas nas ruas e cenários pessimistas em relação à nossa capacidade de fazer frente aos compromissos assumidos por conta da Copa do Mundo.

Mas nem tudo está perdido. No último dia 15, o “The New York Times”, muito provavelmente o mais importante e respeitado jornal do mundo, trouxe em suas páginas uma reportagem grande em todos os sentidos, que mudou um pouco o saldo dessa conta.

O artigo trazia um interessante relato sobre como as modelos transgêneros estão sendo tratadas de forma mais digna pela indústria da moda e pela sociedade no Brasil, em que pesem as enormes dificuldades que ainda enfrentam para conduzir suas vidas. Na fotografia ao lado, uma das protagonistas da matéria mencionada, a jornalista carioca Carol Marra, aparece posando para seu primeiro ensaio sensual, publicado na “Trip” em setembro de 2012.

Carol, como afirma o autor da reportagem, tem servido como referência para  modelos, atrizes e profissionais de outras áreas que vão aos poucos vendo sua condição de transgênero sendo aceita e respeitada, de forma especial nas grandes cidades brasileiras, como São Paulo e Rio. O “NYT” não se furta a mencionar o enorme drama que várias dessas pessoas enfrentaram e continuam enfrentando para levar suas vidas de forma ao menos razoavelmente digna. Mas enaltece o fato de que cada vez mais empresas e pessoas percebem que se trata de algo que precisa ser mais bem entendido e acolhido por um país que carece urgentemente de fatos que nos permitam ainda acreditar que somos minimamente civilizados.

Carol chegou a trabalhar em equipes de produção de jornalismo na Rede Globo, desfilou para o estilista  Ronaldo Fraga e esteve em outras empreitadas tão interessantes quanto. Mas nos últimos meses suas atividades profissionais ganharam novo impulso.

Como atriz, fará um papel na festejada série de televisão “Psi”, do canal HBO, baseada na obra do psicanalista e escritor Contardo Calligaris, ele mesmo há muitos anos um estudioso do universo dos indivíduos  transgêneros. Num dos episódios, aliás, Carol protagonizará o primeiro beijo transgênero da tevê brasileira.

Estará ainda como protagonista representando um personagem feminino num dos episódios da série “Segredos Médicos”, do canal Multishow.

No ensaio mencionado pelo jornal nova-iorquino, publicado em 2012, Carol dizia coisas como: “Olha, espero que o homem mude um dia... O preconceito vem da falta de informação. No dia em que o ser humano começar a ouvir mais o outro, conhecer antes de julgar, vai respeitar. O que eu diria para os leitores que se sentirem ofendidos de alguma forma por ver uma Trip Girl transexual? Ninguém precisa gostar de mim, mas respeito é fundamental. Sou um ser humano como outro qualquer, tenho pai e mãe, e não escolhi ser transexual. Eu nasci assim. Meu sonho é simples.

É ter um marido, uma família feliz, uma vida comum.” Como dizem aqueles que realmente se aprofundam nas pesquisas sobre o futuro da comunicação, independentemente de toda a tecnologia que o mundo possa desenvolver, o olhar humanizado e capaz de ver o que não é óbvio nem necessariamente consagrado, e muito especialmente a capacidade de acessar os sentimentos das pessoas através de histórias bem escolhidas e bem contadas, vai continuar por muito tempo determinando a diferença entre o que passa e o que fica.  O “NYT” sabe disso faz tempo.


Disponível em http://www.istoe.com.br/colunas-e-blogs/coluna/356260_TIMES+FOR+CHANGE. Acesso em 8 abr 2014.

sábado, 12 de abril de 2014

Queer as Folk: Um dialógo entre os movimentos LGBTT e a teoria Queer

Erivaldo Francisco dos Santos Júnior
Monique Cristine Garcez Barros
Universidade Federal de Sergipe (UFS)
XXXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Fortaleza, CE – 3 a 7/9/2012

Resumo: O artigo tem como proposta analisar a principais temáticas abordadas na primeira temporada do seriado norte-americano Queer as Folk (Os Assumidos), primeira série de cunho, exclusivamente, homossexual, enquadrando-as entre os parâmetros dos Movimentos LGBTT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) brasileiros e a Teoria Queer, para com isso demonstrar a possibilidade de se ter abordagem midiática que dialogue com as variadas facetas que existem dentro do “universo” da homossexualidade, além de trazer uma breve discussão sobre a representação dos homossexuais na mídia. 




Palavras-chave: Queer as Folk; Movimentos LGBTT; Teoria Queer; homossexualidade; seriado.


sexta-feira, 11 de abril de 2014

Promíscuos por decreto

Debora Diniz
06 de abril de 2014

No dia 26 de março, o estudante Leonardo Uller foi impedido de doar sangue no Hospital 9 de Julho, sob a justificativa de ser gay. Ele insistiu, dizendo que não apresentava comportamento de risco, e conseguiu fazer a doação. O hospital pediu desculpas, mas descartou o sangue.

Gays são promíscuos e têm sangue ruim. Pessoas assim não doam sangue. Leonardo Uller sentiu-se ultrajado com o diagnóstico da médica que o atendia em um centro de doação de sangue. "Você está insinuando que eu sou promíscuo?", desafiou o rapaz. A pergunta era um espanto irônico ao critério nada científico adotado pela médica para rejeitar seu sangue: "Você não vai querer sangue ruim no seu corpo. Não vai querer sangue de gente promíscua", respondeu a médica. Leonardo é um representante do bando promíscuo, aqueles homens de sangue ruim, descritos de uma maneira inventiva pelas resoluções e pelos documentos da Anvisa e do Ministério da Saúde sobre a doação de sangue: são "homens que fazem sexo com homens". Há até uma sigla para eles, os HSHs.

Os HSHs habitam nosso planeta, são da espécie Homo sapiens, têm família, alguns estudam, outros trabalham. Estão por todos os cantos - alguns gostam de frequentar locais típicos para HSHs, outros nem se anunciam como membros do bando. Muitos têm filhos e rezam aos domingos. Leonardo estuda jornalismo e é um tipo altruísta. Costuma doar sangue. Nunca teve que descrever seu relacionamento estável com outro homem como um caso de HSH até ter tentado doar sangue no Hospital 9 de Julho, em São Paulo. Foi lá que aprendeu que os HSHs não podem doar sangue. Não adianta um HSH insistir. Leonardo soube que seu sangue foi do corpo direto para o lixo. É isso que se faz com o sangue ruim de gente promíscua como são os HSHs! É, preciso ser honesta, não sei bem se foi exatamente com esses modos que a médica se expressou - não há testemunhas, mas eu me permito assim resumir a ousadia altruística de Leonardo.

Se "sangue ruim" foi um resquício medieval de quem acredita em sangue azul, a verdade é que os HSHs são, sim, descritos como "inaptos temporários" à doação de sangue. Para a política do sangue, um HSH é um ser temporário, mas com prazo de validade: 12 meses desde a última relação sexual com outro homem. Mas o que há no sexo dos HSHs para torná-los ruins ou inaptos? A Portaria 2.712, de 2013, da Anvisa é o documento que regulamenta a política de sangue no Brasil - 83 páginas de regras, normas, determinações e classificações. 

A primeira definição que interessa é saber o que seria uma relação sexual para a política do sangue (a classificação vale para todos os representantes da espécie Homo sapiens) - "sexo anal: contato entre pênis e ânus; sexo oral: contato entre boca ou língua com vagina, pênis ou ânus de outro/outra; sexo vaginal: contato entre pênis e vagina". Sei que há uma tendência, na política baseada em evidências, de recuperar fontes bibliográficas recentes de periódicos científicos de língua inglesa, o que deve ter facilitado o esquecimento dos ensinamentos milenares do Kama Sutra sobre os usos da anatomia humana.

Mesmo sem Vatsyayana nas referências bibliográficas, aprendemos como os Homo sapiens se relacionam sexualmente. A dúvida é como os HSHs se diferenciam dos indivíduos sem sigla para serem classificados como tipos de sangue ruim. Homens e mulheres são dados de realidade para o documento, outro sinal da pouca inventividade. Como ficam os transexuais? Mas vamos lá: uma mulher, esse ser portador de vagina, pode fazer sexo anal, oral ou vaginal. Ela pode ou não ter usado camisinha nessas poucas opções anatômicas. Ela descreve seu parceiro fixo como um marido para o questionário do centro de doação de sangue. O marido até pode ser um HSH, mas ela não sabe disso.

Ou pode ser só um desses homens sem sigla, com múltiplas parceiras, mas ela também não sabe. Porém, como a pergunta não é sobre como ela se protege nas relações sexuais com o marido, e sim sobre com quem ela se relaciona sexualmente, ou melhor, com que partes da anatomia ela se relaciona sexualmente, essa mulher é uma de nossas doadoras consideradas aptas pela política do sangue. Ela rapidamente escapa ao questionário inquisitorial sobre os orifícios dos homens, pois é alguém dentro da norma das práticas sexuais não promíscuas.

Leonardo é um homem gay. Vive em um relacionamento estável há 12 meses. A pergunta que importa para as políticas de saúde é como ele se protege de doenças sexualmente transmissíveis antes de considerá-lo um homem apto à doação de sangue. A pergunta sobre proteções e cuidados sexuais deve ser feita a todas as pessoas que se apresentem como doadoras - suas posições, frequências e preferências sexuais serão monitoradas pela metodologia da janela imunológica que exige espera antes de transferir o sangue de um doador para um receptor. O inquietante é saber por que uma pergunta tão simples e óbvia para a prática científica é substituída por rodeios de linguagem. Porque a homofobia teme anunciar-se nos seus próprios termos, por isso traveste-se de cuidados de saúde pública. Não há risco inerente ao sangue de homens gays.

Mas há risco permanente na homofobia, que rejeita os corpos fora da norma sexual. Leonardo foi humilhado pelo sangue que oferecia como uma dádiva. Seu sangue salvador foi reduzido a lixo por ele ser um HSH.  


Disponível em http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,promiscuos-por-decreto,1150003,0.htm. Acesso em 07 abr 2014.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Para a psicanálise, a inveja surge até nos bebês

Mente Cérebro
abril de 2014

Nem os recém-nascidos estão livres dela. Em certa ocasião, um homem extremamente invejoso de outro que morava na casa ao lado recebeu a visita de uma fada, que lhe ofereceu a chance de realizar um único desejo. “Você pode pedir o que quiser, desde que seu vizinho receba o mesmo e em dobro”, disse ela. O invejoso respondeu, então, que queria que ela lhe arrancasse um olho. Moral da história: o prazer de ver o outro se prejudicar prevaleceu sobre qualquer anseio de benefício pessoal. A fábula foi usada pela psicanalista Melanie Klein (1882-1960) em sua obra Inveja e gratidão (1947), um dos principais trabalhos sobre o tema, para ilustrar o funcionamento psíquico de quem vive intensamente esse sentimento.

“Cheguei à conclusão de que a inveja é um fator muito poderoso no solapamento das raízes do sentimento de amor e gratidão, pois ela afeta a relação mais antiga de todas, a relação com a mãe”, escreveu. De acordo com esse olhar, a inveja é a mais radical das manifestações do impulso destrutivo, pois leva a atacar e destruir o objeto bom, aquele cuja introjeção é a base da saúde psíquica. Esse afeto, nem sempre consciente, dificulta a apropriação de experiências boas e, portanto, a integração psíquica.

Segundo a autora, esse afeto não é fruto da decepção ou frustração, faz parte de nossa vida mental desde que somos bebês e independe das atitudes maternas e do ambiente. Pelo contrário, provém do próprio sujeito, é endógena. Propor que seja um aspecto constitucional significa salientar o fator interno. A proposta de uma inveja primária é uma das mais polêmicas da teoria kleiniana. De acordo com essa tese, ainda bem pequenos invejamos o seio materno, capaz de nos alimentar e confortar. A ideia de que o alimento bom e reconfortante não nos pertence aparece associado ao sentimento de impotência. Já os psicanalistas Donald Winnicott, William R. D. Fairbaim e Michael Ballint postulam que a inveja é sempre secundária, resultante de uma falha do ambiente.


Disponível em http://www2.uol.com.br/vivermente/noticias/para_a_psicanalise_a_inveja_surge_ate_nos_bebes.html. Acesso em 07 abr 2014.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Repercussões subjetivas da desordem da diferenciação sexual: quando o sexo é incerto

Liliane Carvalho de Miranda Dias Carneiro
Pós-graduação em Psicanálise, Saúde e Sociedade
Universidade Veiga de Almeida
Rio de Janeiro – RJ - 2010

Resumo: Esta dissertação tem como objetivo elaborar possíveis repercussões subjetivas  as assim chamadas “Desordens da Diferenciação Sexual”. Na introdução, fizemos um breve percurso em alguns mitos que falam de hermafroditismo e transformação do sexo e em questões ligadas ao transexualismo. Para desenvolver nosso tema, partimos da concepção freudiana da sexualidade, abordando como se estabelecem e se diferenciam os complexos de Édipo no menino e na menina. Em seguida, trabalhamos o conceito de identificação, sua relação com a escolha de objeto e com o gênero. Desenvolvemos articulações entre o desejo e a pulsão escópica e trouxemos um caso de agenesia peniana. Concluímos com uma série de perguntas que dizem respeito às relações entre o sexo e a normalidade.