quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Mulheres ganham metade do que os homens na Alemanha

Associated France Presse
27/08/2014

A desigualdade de gênero na Alemanha é muito mais profunda do que dá a entender a simples comparação salarial, destaca um estudo divulgado nesta quarta-feira, que aponta que as mulheres ganham metade do que os homens.

O estudo do instituto DIW de Berlim, que leva em consideração os salários e a renda por capital e propriedade imobiliária, concluiu que uma alemã ganha em média 49% menos que um homem.

O instituto utilizou as declarações de renda realizadas em 2007, os últimos dados disponíveis.
A desigualdade é muito maior, segundo o estudo, que a divulgada pela Agência de Estatísticas do país, segundo a qual se for levado em consideração apenas o salário, as mulheres recebem 22% a menos que os homens por cada hora trabalhada.

Mas de acordo com o instituto DIW, as mulheres não apenas recebem metade que os homens, como as desigualdades aumentam quando a renda é maior.

As desigualdades procedem essencialmente do mercado de trabalho, segundo o estudo.

"Em geral, as mulheres costumam realizar mais trabalhos com salários ruins que os homens", afirma Stefan Bach, coordenador do estudo.

Também é mais frequente entre as mulheres o trabalho em período parcial, Além disso, a gravidez costuma interromper carreiras. Todos os fatores influenciam mais tarde nas aposentadorias, pensões e desemprego.

A diferença homem/mulher é menor em termos de capital, já que a renda média procedente do capital das mulheres representa 66% do que é registrado pelos homens.

No caso da propriedade imobiliária são levemente superiores a dos homens.


Disponível em http://exame.abril.com.br/carreira/noticias/mulheres-ganham-metade-do-que-os-homens-na-alemanha. Acesso em 30 ago 2014.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Candidatos apostam em apelidos eróticos e bizarros como marketing

André Miranda
31/08/2012

Nestes tempos em que o marketing define nossas vidas, ser candidato a um cargo público é mais ou menos como vender um produto. O bom candidato precisa fazer com que o eleitor realmente acredite nele: em sua imagem, em seu discurso e, também, em seu nome. Maria Raimunda Soares Alcantara sabe bem disso. Aos 52 anos, solteira, ela adotou um nome mais simpático para tentar ser vereadora em Cachoeira do Arari, no Pará. Candidata pelo Partido Trabalhista Cristão, ela é a Maria Gostosa.

Por sorte, nenhum dos nove Pirocas destas eleições mora perto de Maria Gostosa. Sim, há nove Pirocas na campanha, muitos orgulhosos dos sobrenomes herdados. Só que em Pontalina (GO) há um postulante a vereador cujo nome é Sebastião José Amador. Tião, como a gente espera que ele seja chamado pelos parentes, achou seu nome sem graça. Adotou, então, um apelido. Ele é simplesmente o Piroca.

Mas poderia ser pior. Sempre pode ser. Uma candidata a vereadora em Santa Maria de Jetibá (ES) assina Rola Italiana. A gente torce para que ela nunca explique a origem do “italiana”. Aliás, o site de dados Eleições 2012 lista cinco candidatos que usam o nome Rolla e 17, Rola, incluindo as variantes Róla e Rôla e Vandão do Rala e Rola. Fora Pau Doce, Marcio do Pau Preto e Pau Vestido.

‘Eu não fumo, mas também não podemos discriminar quem fuma’

Em seus vídeos de campanha, o candidato a vereador no Rio pelo PSDB Miguel Fernández y Fernández apela para uma tática arriscada. Ele aparece numa mesa de bar, num ambiente fechado, tomando uma cervejinha ao lado de amigos fumantes. E ainda diz: “Temos que acabar com essa história do politicamente correto”. Hein?

Crise de identidade heroica

Em Piracicaba (SP), um candidato a vereador do PP tem se apoiado na imagem de um conhecido super-herói. Ele é chamado Geraldo Wolverine. O nome já é um tanto bizarro, mas é sempre possível que o sujeito tenha sido um grande nerd na escola e tenha ficado conhecido em Piracicaba pelo apelido de infância. Mas Geraldo achou que o nome não era suficiente. Ele deixou as costeletas crescerem, cortou o cabelo como o herói e ainda fica dando gritos raivosos. Só que há um problema de crise de identidade nisso. Num de seus vídeos que está na web, ele diz: “Quem poderá nos defender?” Geraldo, amigão, o Chapolin Colorado não é exatamente um tipo que passa confiança para o eleitorado.

Sambistas se unem em programa de Eduardo Paes

A turma da campanha do prefeito Eduardo Paes (PMDB) à reeleição não perdoou a entrevista dada por Marcelo Freixo (PSOL) na semana passada. No “RJTV”, Freixo criticara enredos de escola de samba sem um suposto valor cultural. Ontem, no programa de Paes, uma dúzia de sambistas, como Dudu Nobre, Monarco e a Velha Guarda da Portela, gravou um clipe em que canta seu apoio à recondução de Paes ao cargo.

Cesar Maia quer exclusividade sobre o laranja

O ex-prefeito Cesar Maia, candidato a vereador no Rio pelo DEM, parece estar orgulhoso de ter “lançado” uma moda. Em seu Twitter, ele postou ontem a seguinte frase: “Cor laranja. Agora muita gente está usando na campanha”. Em seguida, Cesar publicou um link para um artigo sobre o extensivo uso de material na cor laranja na campanha de José Serra (PSDB), candidato a prefeito em São Paulo. Cesar, como todo carioca sabe, sempre adorou laranja.

Disponível em http://oglobo.globo.com/brasil/candidatos-apostam-em-apelidos-eroticos-bizarros-como-marketing-5960181. Acesso em 30 ago 2014.

sábado, 13 de setembro de 2014

Vitima conhece seu agressor na maioria dos casos de homofobia

Folha de S. Paulo
23/07/12

Por dia são feitas 19 denúncias de violência motivadas por homofobia, segundo relatório da Secretaria Nacional de Direitos Humanos da Presidência. É primeira vez que o governo divulga dados oficiais sobre o tema.

O estudo usou dados coletados em 2011 pelo Disque 100, que recebe e verifica relatos de violações dos direitos humanos, somados a registros da ouvidoria do SUS, da Secretaria de Políticas para Mulheres e do Conselho Nacional de Combate à Discriminação.

Ao todo, foram registradas 6.809 denúncias. Em 62% dos casos o suspeito era conhecido da vítima - familiares e vizinhos respondiam por mais da metade das agressões.

Os registros de violência supostamente cometida por desconhecidos foi de cerca de um terço do total. Em 9% dos casos, o suspeito não teve a identidade informada. Grande parte das agressões ocorreu na casa da vítima (42%). A rua foi palco de 31% dos casos informados.

O estudo ainda traça um perfil dos suspeitos: 40% é homem, heterossexual e tem de 15 a 29 anos.

Isso mostra que os jovens são as maiores vítimas e também os maiores agressores", diz Gustavo Bernardes, coordenador de direitos LGBT da Secretaria Nacional de Direitos Humanos.

Ele crê que o número de agressões seja maior porque nem todos denunciam. A denúncia predominante foi de violência psicológica (42,5%), como humilhações e ameaças, seguida de discriminação (22%) e de violência física (16%). A maioria aponta mais de um agressor.

Para a presidente da Comissão de Diversidade Sexual da OAB, Maria Berenice Dias, a ausência de uma lei que criminalize a homofobia faz a maioria das denúncias ficar impune. "Acaba condenando à invisibilidade todas essas agressões", afirma.



Disponível em http://cidadeverde.com/diversidade/44314/vitima-conhece-seu-agressor-na-maioria-dos-casos-de-homofobia. Acesso em 30 ago 2014.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Assédio sexual impede o progresso feminino no mundo científico

Christie Aschwanden
21/08/2014

Quando cursava biologia, passei várias semanas de verão na Costa Rica com um estudante mais velho num projeto de pesquisa nas profundezas da floresta. Éramos somente nós dois e, ao chegar ao local, descobri que ele havia reservado um quarto só para nós dois, com uma cama.

Atormentada, mas com medo de ser chamada de pudica ou difícil, não criei caso. Puxei o dono do hotel de lado no dia seguinte e solicitei uma cama. O problema terminou ali, e meu chefe estudante nunca tentou nada fisicamente.

Pensando melhor, fico surpresa em como eu estava despreparada para lidar com esse tipo de situação, principalmente aos 19 anos. Indubitavelmente, minha faculdade tinha uma polícia contra assédio, mas tais recursos estavam a milhares de quilômetros de distância. Eu estava sozinha num país estrangeiro e nunca fora ensinada sobre meus direitos e recursos nessa área.

Eu havia me esquecido dessa experiência de duas décadas atrás até que li um relatório publicado em julho no periódico "PLOS One". Kathryn Clancy, antropóloga da Universidade de Illinois, campus de Urbana-Champaign, e três colegas usaram e-mail e a mídia social para convidar cientistas a preencher um questionário online a respeito de suas experiências com assédio e agressão durante pesquisas de campo; eles receberam 666 respostas, três quartos delas de mulheres, de 32 disciplinas, inclusive antropologia, arqueologia, biologia e geologia.

Quase dois terços dos participantes disseram que sofreram assédio sexual durante pesquisas de campo. Mais de 20% relataram agressões sexuais. Estudantes ou alunos de pós-doutorado e mulheres mostravam maior probabilidade de serem vítimas dos superiores. Poucos participantes afirmaram que o local da pesquisa tinha um código de conduta ou política relativa a assédio sexual, e das 78 pessoas que ousaram relatar incidentes, menos de 20% se deram por satisfeitas com o resultado.

Os resultados são depressivamente parecidos aos dados que colegas e eu coletamos neste ano com um questionário online enviado a divulgadores científicos. Nós recebemos respostas de 502 redatores, a maioria composta por mulheres, e apresentamos os resultados no Instituto de Tecnologia de Massachusetts em junho, durante conferência sobre mulheres que trabalham com jornalismo científico, com patrocínio da associação nacional que nos representa.

Mais da metade das mulheres que responderam afirmaram que não foram levadas a sério por causa do seu gênero, uma a cada três sofreu percalços no progresso na carreira e praticamente metade sustentou não ter recebido crédito por suas ideias. Quase metade disse ter sido paquerada ou ter ouvido comentários sexuais, e uma em cada cinco sofreu contato físico indesejado.

Em função da natureza voluntária, não se pode esperar que nenhum dos relatórios nos conte a verdadeira incidência da discriminação sexual e do assédio entre cientistas e jornalistas científicos. Ainda assim, o volume de respostas nos passa um recado inconfundível: após quatro décadas desde a lei que proibiu discriminação sexual na educação pública nos Estados Unidos e 23 anos após Anita Hill ter colocado o assédio sexual sob os holofotes, a parcialidade e o assédio continuam a impedir o progresso feminino.

Clancy afirma que decidiu coletar os dados depois de ser esmagada pelas respostas a uma postagem que publicou em seu blog na revista "Scientific American" em 2012. Uma estudante, "Neblina", recontou sua vida durante a faculdade:

"Meu corpo e minha sexualidade eram discutidos abertamente pelo meu professor e os alunos", escreveu a mulher. "Seguiam-se comentários sobre o tamanho grande de meus seios, e ouviam-se especulações sobre minha história sexual." O professor "costumava brincar que somente mulheres bonitas podiam trabalhar com ele, o que me levou a indagar se meu intelecto e capacitação tinham relevância".

Os comentários e e-mails jorraram, disse Clancy. "Uma história logo virou duas e, rapidamente, pareceu serem cem".

Igualmente, nossa pesquisa com redatoras nasceu das conhecidas acusações de assédio contra um famoso editor que foi mentor de muitas jornalistas. Os incidentes levaram as mulheres a revelar suas histórias de discriminação no decorrer da profissão.

Segundo Clancy, no meio acadêmico, acusações de assédio sexual e estupro costumam ser administradas internamente, criando incentivos poderosos para encobrir o mau comportamento, principalmente entre agressores com influência e poder.

"Escutei muitas histórias sobre o professor que não tem permissão de estar no mesmo recinto com fulana ou beltrana", ela contou. Às vezes, os agressores se beneficiam se livrando de tarefas de aprendizado desagradáveis sem perder o emprego.

O assédio entre jornalistas científicos gerou uma hashtag, #ripplesofdoubt, para descrever como ele enfraquece as mulheres. Mulheres ignoradas para cargos se questionam se foram rejeitadas em função do visual e não pelo trabalho. Outras temiam não ter alcançado a posição por mérito.

De fato, os dados sugerem parcialidade em decisões de orientação. De acordo com estudo publicado neste ano, uma equipe de pesquisadores liderada por Katherine L. Milkman, da Universidade da Pensilvânia, enviou cartas idênticas, supostamente de estudantes, a mais de 6.500 professores de 259 universidades pedindo para discutir oportunidades de pesquisa. Os professores estavam mais propensos a responder ao e-mail de "Brad Anderson" do que de candidatas fictícias com nomes como Claire Smith ou Juan Gonzalez. Esse tipo de parcialidade perpetua a discriminação.

"Nosso mundo é pequeno e os recursos, escassos", disse outra autora do relatório publicado em "PLOS One" Julienne Rutherford, bióloga e antropóloga da Universidade de Illinois, campus de Chicago. Para ela, se mulheres são dissuadidas ou excluídas de algumas oportunidades, as perdas para a ciência são enormes.

Ano passado, na conferência anual de jornalistas científicos, juntei-me a cinco importantes jornalistas mulheres para apresentar os dados que havíamos coletado sobre as disparidades de gênero em autoria, cargos de nível elevado, prêmios e salários, e para recontar histórias da época em que nosso gênero atrapalhou nossas carreiras.

A seguir, longas filas se formaram aos microfones enquanto pessoas na plateia se levantavam para contar suas histórias. Mulheres jovens contaram ter sido assediadas pelas fontes. Jornalistas tarimbadas recordaram de chefes de mãos inquietas.

Homens se levantaram para oferecer apoio. O diretor de um famoso programa de jornalismo científico disse que da próxima vez que uma aluna confidenciasse ter sido assediada durante estágio, ele iria intervir; aparentemente, a ideia não lhe ocorrera antes.

Em sua maioria, os homens não são sorrateiros, mas têm um papel poderoso a desempenhar aqui. Durante viagem a uma conferência de jornalismo alguns anos trás, tive uma conversa envolvente com um dos principais palestrantes. Quando nos despedimos, ele me disse, diante de dois outros homens, "seu marido não deveria deixar você sair de casa".

Os dois observadores consideraram essa fala insultuosa um elogio. Foi mais fácil para eles ignorarem do que chamar a atenção de um amigo, e seu comportamento mostrou que não havia problemas em me tratar assim.

Quer o assédio ou a discriminação aconteça num local de pesquisa na Costa Rica ou na sala de conferência, o problema não será solucionado com novas regras arquivadas em sites não lidos. A responsabilidade de resistir não deveria ficar somente a cargo das vítimas. As soluções exigem uma mudança de cultura que somente pode começar de dentro.

Será preciso que os diretores-presidentes, chefes de departamento, diretores de laboratório, professores, editores e redatores-chefes tomem uma posição e digam: pode ir parando com isso. Não me importa se você é meu amigo ou colega preferido; nós não tratamos mulheres assim.

Disponível em http://delas.ig.com.br/comportamento/2014-08-21/assedio-sexual-impede-o-progresso-feminino-no-mundo-cientifico.html. Acesso em 30 ago 2014.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Em sintonia com o coletivo

Bernd Simon
março de 2005

A cela é pequena e suja. Três homens vestindo trajes desbotados estão encolhidos no chão. Quietos, estremecem a cada ruído no corredor. De repente, dois guardas usando uniforme e óculos escuros aparecem na porta, batendo os cassetetes nas mãos. A violência está para começar.

Seis dias antes, tanto prisioneiros como guardas eram jovens universitários comuns. O ano é 1971, e eles estavam prestes a iniciar uma experiência de duas semanas planejada por Philip G. Zimbardo. O psicólogo da Universidade Stanford dividiu aleatoriamente um grupo de estudantes mentalmente sãos entre "guardas" e "prisioneiros", que deveriam conviver em uma prisão simulada no campus. Zimbardo teve de interromper o estudo prematuramente depois de apenas seis dias, porque os guardas haviam se tornado sádicos, abusando física e psicologicamente dos prisioneiros.

Mas como jovens pacatos puderam se transformar de forma tão assustadora em tão pouco tempo? Naquela época, Zimbardo ofereceu uma resposta simplista: protegidas pelo anonimato da multidão, as pessoas perdem todos os limites e desprezam normas éticas. Na turba, tornam-se animais de um rebanho desenfreado, sem controle ou compaixão.

Atualmente, o estudo clássico, e polêmico, de Zimbardo é freqüentemente citado em apoio à idéia do "coletivo maligno". Mas essa visão se justifica realmente? Pesquisas recentes indicam que, muito embora grupos levem seus integrantes a se comportar de uma forma que eles não fariam no dia-a-dia, essas ações podem ser tanto positivas quanto negativas. No final de 2001, quando os psicólogos britânicos Stephen D. Reicher e S. Alexander Haslam reproduziram a experiência do prisioneiro para o que viria a ser um reality show exibido pela rede BBC, os guardas agiram de forma um tanto cautelosa.

Em razão dos resultados contraditórios, Haslam e Reicher concluíram que o comportamento do grupo depende das expectativas de seus membros sobre os papéis sociais que eles deveriam desempenhar. Se acreditam que se espera deles uma conduta autoritária, é bem provável que ocorram abusos. Zimbardo, por exemplo, encorajava os guardas a portarem-se de modo ameaçador. A chave para entender como os indivíduos de um grupo irão proceder são suas crenças pré-condicionadas sobre o que devem fazer.

Embora os psicólogos possam discordar se indivíduos em uma multidão tornam-se bons ou maus, eles concordam num ponto fundamental: imerso no coletivo, o indivíduo extrapola a si mesmo, para o bem e para o mal.

A dinâmica dos grupos e movimentos de massa é fascinante por causa dos extremos a que podem levar as pessoas. Um indivíduo em um grupo de voluntários arrisca a vida para salvar uma criança, evitando que ela caia nas águas de uma enchente, enquanto outro, em nome de uma causa coletiva "maior", de bom grado se sacrifica como homem-bomba. Demonstrações desse tipo ocorreram diversas vezes na história, desde a turba clamando pela crucificação de Jesus até a boa vontade dos povos na recente Olimpíada de Atenas.

Regras fanáticas

Em geral, o temor das pessoas em relação à mentalidade das massas cria nelas a expectativa de que grupos apresentem aspectos sinistros, apesar de a história mostrar, por exemplo, que mudanças sociais positivas são impossíveis sem movimentos de massa. O surgimento dos direitos humanos, a queda do Muro de Berlim, o ambientalismo - muitos avanços recentes resultaram do engajamento massivo de pessoas que lutaram por um bem comum, colocando seus interesses pessoais em segundo plano para atingi-lo. O experimento da BBC destrói também a visão negativa, muito disseminada, de que, em uma multidão, a identidade do indivíduo se dissolve, e ele é levado a cometer atos imorais e irracionais.

Psicólogos sociais desmistificaram o comportamento coletivo, demonstrando que se trata de atitudes psicológicas normais e explicáveis cientificamente. A psicologia do coletivo não é patológica. Mas com certeza a identidade do indivíduo é, em algum grau, despersonalizada quando ele entra em um grupo social, seja comitê de ação política, seja clube ou orquestra sinfônica.

Mas será que isso basta para alguém perder todo o senso de moralidade e cometer maus atos? A complexa interação entre o "eu" e o "nós" vem confundindo os cientistas há séculos. Em seu livro Psychologie des foules (Psicologia das massas), de 1895, o médico e sociólogo francês Gustav Le Bon argumentava que, em grupo, os indivíduos perdem a identidade e, conseqüentemente, o autocontrole. Guiados apenas por emoções e instintos, agem segundo uma força primitiva, que ele chamou de "inconsciente racial".

Outros pesquisadores afirmaram que coletivos teriam uma consciência mental independente. O psicólogo britânico William McDougall, que formulou, no início do século XX, a chamada hipótese da mentalidade de grupo, considerava que todos aqueles que se juntam a uma multidão abrem mão de sua identidade em favor de uma "alma coletiva".

As teorias de Le Bon e McDougall foram posteriormente alvo de ceticismo: em especial, a idéia da massa com sua própria percepção mental foi considerada por demais metafísica. Mas a noção de perda de identidade do indivíduo sobrevive. Na década de 70, após o trabalho de Zimbardo, a idéia foi desenvolvida e aprimorada pelos estudos dos chamados grupos mínimos. Nessas experiências, os participantes eram alea-toriamente agrupados de acordo com critérios triviais, como preferências no modo de vestir. Apesar de a divisão ser arbitrária, na maioria dos casos isso criou forte sentimento de ligação ao grupo, assim como comportamentos condizentes com esse sentimento.

Baseados nessas investigações, Henri Tajfel, da Universidade de Bristol, Inglaterra, e John C. Turner, atualmente na Universidade Nacional da Austrália, em Canberra, formularam, no início dos anos 80, a "teoria da identidade social". Segundo a tese dos psicólogos, o pertencer a um grupo criava um "sentimento de nós" no indivíduo, a percepção de uma "personalidade coletiva". Quanto mais a pessoa se envolve com o coletivo, maior a sua identificação com ele e mais completa a sua aceitação de valores e normas do grupo. Estas podem variar desde a autodestruição voluntária, como a demonstrada por seitas como o Ramo Davidiano em Waco, Texas, até o socialismo utópico coletivista, caso dos kibutzim em Israel. Ao contrário dos modelos de Le Bon e McDougall, a teoria da identidade social afirma que os indivíduos não são arrastados pela mentalidade de grupo, mas escolhem modos em comum de sentir, perceber, pensar e agir.

A causa do grupo

Apesar disso, objetivos coletivos podem surgir e se fundir aos objetivos pessoais de alguém - por vezes de modo tão completo que a causa do grupo se coloca acima de todo o resto. Em razão disso, o indivíduo pode fazer grandes sacrifícios pessoais por aquilo que supõe ser o bem comum. Ataques terroristas de homens-bomba suicidas dão testemunho eloqüente do quão longe podem ir essas ações. Comportamentos agressivos têm mais probabilidade de irromper se a personalidade coletiva assume o controle sobre a percepção e as ações do indivíduo. Desse modo, a pessoa não mais distingue entre o "eu" e o "ele", mas apenas entre o "nós" e "os outros".

Essa dinâmica pode surgir de forma esporádica também entre pessoas que levam vidas normais, como o vizinho gentil que todos os sábados se transforma no barulhento torcedor de futebol, xingando em alto e bom som os torcedores do outro time. Para ele, essa atitude é o resultado lógico de sua profunda lealdade ao "nós" de seu amado clube. No melhor dos casos, esse torcedor irá ignorar o grupo "estrangeiro" - os outros - mas ele pode, com a mesma facilidade, se tornar desdenhoso e hostil em relação a eles. Essa transformação não é tanto manifestação de uma misteriosa psique de massas, mas uma ação racional coletiva que se ajusta a certas regras estabelecidas. O torcedor de futebol dá seus gritos de guerra no estádio para ajudar seu time a vencer.

Caso o jogo termine em derrota e a frustração dos torcedores se transforme em violência, esta não é indiscriminada; ela se dirige ao grupo oponente, reconhecível por suas insígnias e camisas. Mesmo assim, algumas vezes as fronteiras entre o "nós" e o "eles" mudam de modo surpreendente. Torcedores em confronto de uma hora para outra juntam-se contra a tropa de choque. Em bairros socialmente tumultuosos, membros de grupos étnicos antagonistas tendem a se unir na luta contra o que eles reputam serem ações policiais violentas e injustas. Grupos sociais pouco dados à cooperação podem se aliar em âmbito nacional, como aconteceu nos Estados Unidos depois dos ataques de 11 de setembro de 2001. No entanto, essas situações não explicam como uma passeata pacífica de repente se transforma em uma turba atirando pedras.

O fator crucial parece ser que ações isoladas de indivíduos podem ter efeito catalisador sobre o grupo. Se o primeiro a arremessar uma pedra é reconhecível, de forma inequívoca, como um membro do coletivo - por exemplo, por suas roupas ou palavras-de-ordem - sua ação acaba com qualquer dúvida que os demais tivessem sobre o papel que devem desempenhar. Eles rapidamente imitam o comportamento do "personagem exemplar".

Essas ações, que se espalham rapidamente, às vezes surgem com bastante facilidade em um grupo que não tem um líder forte ou um código de comportamento firmemente estabelecido. Sem orientação clara, os participantes reproduzem, por vontade própria, qualquer suposto "exemplo a ser seguido". Tumultos e quebra-quebras seguem suas próprias regras espontâneas.

Sob anonimato

Mas por que o indivíduo na multidão anônima deveria seguir alguma regra? Escondido sob o anonimato, ele poderia facilmente escapar às regras da coletividade sem temer qualquer sanção. Mas diversos estudos mostram que, na realidade, o anonimato aumenta a disposição da pessoa a se envolver em comportamentos excepcionais. Infelizmente, a aquiescência esporádica com freqüência leva as pessoas a desprezar as regras de comportamento aprendidas durante a socialização normal, do tipo "Seja educado". Em sociedades civilizadas, a maioria das pessoas não quer fazer mal aos outros.

No entanto, como mostrou a experiência de Zimbardo, normas próprias de situações específicas podem surgir, e a adesão a elas ser reforçada pelo anonimato. Em certo sentido, as pessoas do grupo se vêem encorajadas porque pensam que as outras pessoas na multidão provavelmente irão apoiar seu comportamento. Se os voluntários da experiência assumem o papel de guardas de prisão, a agressão pode muito bem se tornar a norma naquela situação; todos "sabem", por meio de filmes e de ouvir falar, que guardas de prisão devem disciplinar os prisioneiros, geralmente por meio do uso da força.

Mas o que faz as pessoas na vida real se unir e se engajar em clubes, organizações e manifestações? No passado, sociólogos consideravam os indivíduos que participam de movimentos de massa, no fundo, egoístas dissimulados. Se e com que intensidade se dava seu engajamento em um grupo dependia da sua "análise de custo-benefício" pessoal - o que ele tinha a perder e a ganhar. Hoje em dia, sabemos que a maioria dos membros é motivada por sua auto-imagem coletiva.Alguém que saiba como influenciar essa autocompreensão coletiva é capaz de liderar as massas a grandes feitos, como Martin Luther King Jr., mas também de desencaminhá-las. Essa habilidade é o que sustenta o carisma de líderes de seitas e revolucionários. Se um herói de guerra ou um terrorista dá sua vida pelo coletivo, ele não está necessariamente fazendo uma análise de custo-benefício equivocada. Na verdade, ele deixou de calcular seu bem-estar pessoal levando em conta a dor ou a morte. Sua consciência foi completamente tragada pelo coletivo. A morte sacrificial passa a ser a forma mais elevada de auto-realização.

Nosso recém-adquirido conhecimento sobre a psicologia das massas talvez nos ajude a, no futuro, resistir à sedução dos demagogos. No momento, ele nos permite entender as forças criativas das coletividades que continuam a tornar possíveis muitos avanços.


Disponível em http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/em_sintonia_com_o_coletivo.html. Acesso em 30 ago 2014.