sábado, 21 de setembro de 2013

Chinês processa esposa porque ela fez plástica para ficar bonita

G1
29/10/2012

Um chinês pediu o divórcio e processou a mulher depois que descobriu que ela havia feito uma cirurgia plástica para ficar mais bonita antes de eles se casarem, segundo a imprensa local.

Jian Feng alega que foi enganado pela esposa, pois ele acreditou que a beleza dela era natural, e não formada a partir do bisturi de um cirurgião.

Feng ganhou uma indenização de cerca de R$ 245 mil.

Feng disse, em audiência no tribunal, que estava profundamente apaixonado por sua esposa, até que ela deu à luz uma menina.

Segundo ele, a criança era muito feia, sem semelhanças com ele ou a esposa.

Feng acabou descobrindo que a mulher havia passado por uma cirurgia plástica e pediu o divórcio.


Disponível em http://g1.globo.com/planeta-bizarro/noticia/2012/10/chines-processa-esposa-porque-ela-fez-plastica-para-ficar-bonita.html. Acesso em 19 set 2013.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Erotismo politicamente correto

Marcio Ferrari
Edição 211 - Setembro de 2013

Com o aumento da longevidade, a velhice está se tornando a fase mais longa da vida. Contada geralmente a partir dos 60 anos de idade – mas não raro a partir dos 50 –, às vezes corresponde a quase metade da existência de uma pessoa. Atualmente já se pode falar não de uma única velhice, mas de várias, dependendo da faixa etária e das condições sociais e individuais do idoso. Por ser o prolongamento da expectativa de vida um fenômeno recente e veloz, as políticas públicas, as concepções médicas e as de senso comum sobre a velhice se sucedem, se entrelaçam e muitas vezes se confundem.

As variações e contradições dos discursos gerontológicos das últimas décadas são o tema do estudo Velhice, violência e sexualidade, da professora Guita Grin Debert, do Departamento de Antropologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O trabalho se insere num conjunto de estudos que a pesquisadora vem desenvolvendo ao longo de sua carreira acadêmica, cujas conclusões mais recentes se encontram no campo da sexualidade – ou, mais precisamente, no processo de “erotização da velhice” verificado nas últimas décadas.

O estudo foi feito com base na análise de documentos e pronunciamentos oficiais, de textos publicados na imprensa e da literatura de autoajuda, além de dados etnográficos obtidos em espaços de socialização de pessoas idosas. O que se percebe, segundo Guita, é uma mudança marcante da década de 1970 para cá. Evoluiu-se de uma concepção em que a velhice é caracterizada como uma fase de “decadência física e perda de papéis sociais”, na qual a vivência sexual praticamente se extingue, para outra em que uma sexualidade ativa e gratificante é pré-requisito para uma vida saudável e feliz.

É quando surge o conceito de “terceira idade” e passa a predominar a ideia de que o sexo “é quase uma obrigação” para os idosos. Trata-se do que a pesquisadora chama, tomando de empréstimo uma expressão criada pela socióloga Maria Filomena Gregori, de “erotismo politicamente correto”. Não por acaso, na discussão sobre a terceira idade, os médicos vão perdendo terreno para os psicólogos.

“A velhice se tornou a idade do lazer e da realização pessoal”, diz Guita. Essa concepção, que não se restringe ao Brasil, acaba influindo diretamente nas definições do que é ser velho e nos parâmetros da “gestão do envelhecimento”. “Não deixa de ser também um novo mercado, porque, entre todos os grupos sociais, o dos velhos é o que tem mais disponibilidade de consumo”, diz a antropóloga.

A derrubada do mito da velhice assexuada se deu em campos múltiplos. Estudos de várias áreas comprovaram que a sexualidade não se esgota com o passar dos anos. É indiscutível o declínio da frequência das relações sexuais, mas emerge, por outro lado, a percepção de que a qualidade dessas relações pode aumentar. Os encontros podem tornar-se mais livres e afetuosos. Percebe-se que os papéis tradicionais de gênero, nesse sentido, tendem a se inverter: as mulheres passam a ser menos recatadas e os homens, mais afetuosos. Nas sensações também haveria mudanças: o prazer estaria espalhado pelo corpo, ocorrendo um processo de “desgenitalização”.

A sexóloga e psiquiatra Carmita Abdo, do Projeto de Sexualidade (Pro-Sex) do Hospital das Clínicas da Universidade São Paulo, coordenou em 2008 o Mosaico Brasil, um amplo estudo sobre a sexualidade dos brasileiros. Os resultados mostraram que a atividade sexual é mantida na velhice, mas não sem percalços. “A chegada da menopausa na mulher, com o fim da produção de hormônios, causa um grande impacto físico e psicológico, em especial num país que cultua tanto a beleza e a jovialidade”, diz Carmita. Entre os homens, a fertilidade se mantém, mas, a partir da quinta década de vida, aumenta a incidência de problemas de saúde que comprometem a potência sexual.

O desejo, no entanto, permanece. “O repertório sexual muda com a idade. Torna-se menos arrojado, até pelas limitações da mobilidade física”, diz a sexóloga. “O ato é mais rápido do que antes, mas as carícias se prolongam. O prazer é tanto maior quanto for a cumplicidade do casal.” Relações não maritais também vêm aumentando, tanto entre homens quanto entre mulheres, muitas vezes com parceiros mais jovens.

Portanto, um “sexo sem pressa” seria o marco dessa fase da vida. O surgimento dos medicamentos contra a disfunção erétil, contudo, prenuncia um reajuste de discurso que ainda está em andamento. “O triunfo da ênfase nos ganhos da velhice, ainda que possam ter eclipsado a necessidade de atenção às perdas físicas, contribuiu positivamente para quebrar preconceitos e trouxe uma aceitação da diversidade relacionada à idade”, diz Guita. E a ideia de que uma vida sexual ativa faz bem à saúde tem fundamento, segundo Carmita, ainda que de modo indireto, pela satisfação que traz.

Num aparente paradoxo, a nova configuração das concepções de velhice permitiu até mesmo uma libertação, entre as mulheres, das “obrigações” da vida sexual regular e característica das relações maritais. Muitas idosas viúvas, solteiras e separadas, ou cujos maridos sofrem de doenças incapacitantes, frequentam bailes da terceira idade, objeto de estudos separados das antropólogas Mirian Goldenberg, do Departamento de Antropologia Cultural da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e Andrea Moraes Alves, da Escola de Serviço Social da mesma instituição. Ambas detectaram uma continuidade dos investimentos na sexualidade do corpo – a vaidade e os cuidados estéticos se mantêm, embora sem o vínculo com o exercício da sedução –, mas agora acompanhada de liberdade: a liberdade de não transar.

É o que Mirian define como uma substituição do “eu preciso” (ser mãe, esposa, amante) pelo “eu quero” (diversão, prazer, amizade com outras mulheres). O parceiro da dança, geralmente mais jovem, não é necessariamente um parceiro sexual. Essa abstinência, para muitos analistas – incluindo Guita Debert, Carmita Abdo e a própria Andrea Moraes Alves –, ainda revela a carga de uma moralidade conservadora e “atrelada ao estereótipo da mulher que deve obedecer”, nas palavras da antropóloga da Escola de Serviço Social da UFRJ. Seja como for, Mirian ressalta que as entusiastas desses bailes resistem “às imagens de um corpo envelhecido”. Um dado revelador, nesse sentido, é apontado por ela entre os dados de sua pesquisa: o único grupo social que discorda da conhecida ideia de que os homens envelhecem melhor é o das mulheres acima de 60 anos.

As pesquisas conduzidas por Mirian, que deram origem ao livro recém-lançado A bela velhice (editora Record), mostram que, ao chegar à terceira idade, as mulheres se sentem propensas a se distanciar de uma vida familiar que mais cobra do que proporciona, enquanto os homens, depois de anos dedicados a obrigações profissionais, procuram na família um acolhimento que se reveste de novidade e gratidão. Profissionalmente, também há um contraste entre os gêneros. “Enquanto os homens idosos se realizam com novos estudos e novos trabalhos que trazem prazer, mais do que remuneração, as mulheres buscam fazer exclusivamente coisas de que gostam, geralmente no campo da socialização e da reciprocidade”, diz Mirian. Guita percebe fenômeno semelhante: as mulheres procuram a amizade de outras mulheres, os homens se engajam em atividades conjuntas com outros homens, como associações de aposentados.

A aposentadoria, como reivindicação-símbolo do estrato social dos idosos, é, segundo Guita, o marco do discurso gerontológico dos anos 1970, “em seu empenho em sensibilizar o poder público e a sociedade para a importância de estudos e de ações voltadas para um envelhecimento populacional bem-sucedido”. A antropóloga observa, no entanto, que a ênfase numa visão negativa da velhice já não encontrava, nas pesquisas, concordância da parte dos próprios idosos. Hoje mais ainda: como atestam depoimentos colhidos por Mirian Goldenberg, muitas pessoas dizem viver na velhice a melhor fase de suas vidas. Os depoimentos de idosos que participam de universidades e demais grupos de convivência para a terceira idade revelam um otimismo que não se coaduna com a ideia de uma fase da vida marcada pela falta.

Tais associações, inclusive aquelas criadas por órgãos públicos como a Secretaria dos Direitos Humanos do governo federal, seguidamente se rebelam contra discursos oficiais que atribuem aos sistemas de bem-estar dos idosos a responsabilidade por gastos públicos excessivos. “Combater os preconceitos em relação à velhice era mostrar que seus participantes mantinham a lucidez e sabiam criticar os governos, os políticos e as interpretações errôneas que a mídia fazia de todos os diferentes aspectos da vida social brasileira”, escreveu Guita no artigo “Fronteiras de gênero e a sexualidade na velhice”. “Muitos deles eram críticos dos programas para a ‘terceira idade’, que alguns chamavam de ‘playground de velhos’, por desviarem aposentados e pensionistas de seus reais interesses.”

O descompasso entre as percepções da velhice presentes nos discursos hegemônicos, de um lado, e na experiência dos próprios idosos, de outro, vigora igualmente no campo da sexualidade. A visão “oficial” aborda o erotismo na terceira idade de um ponto de vista da manutenção da juventude. “Não consta nenhuma intenção de promover, do ponto de vista estético, os corpos envelhecidos”, diz Guita. O novo mito da velhice feliz e erotizada também cobra seus dividendos. A antropóloga Andrea detecta, nas mulheres idosas, diferentes “estratégias” no modo como elas lidam com o próprio corpo. Uma delas é “negociar” constantemente os limites do rejuvenescimento. De um lado, investem em cirurgias plásticas, maquiagem e roupas para prolongar a aparência jovem. De outro, se mantêm alertas (e tensas) para não correr o risco de parecerem “velhas ridículas e vulgares”. E raras são as mulheres que, ainda nos primeiros anos da velhice, enfrentam o tabu dos cabelos brancos, sem tintura, “tão marcante no Brasil”.

Projeto
Sexualidade, gênero e violência nas políticas da velhice (2011/10537-6); Modalidade:Linha Regular de Auxílio a Projeto de Pesquisa; Coord.: Guita Grin Debert/Unicamp;Investimento: R$ 36.208,15 (FAPESP).


Disponível em http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/09/12/erotismo-politicamente-correto/. Acesso em 19 set 2013.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

PR: aluna transexual recorre ao Estado para usar nome feminino na escola

Rafael Moro Martins
12/09/2013

Em Curitiba, uma estudante transexual de 15 anos recorreu à Seed (Secretaria da Educação do Paraná) para poder ser tratada pelo nome social na escola particular em que estuda. Apesar de seu registro civil trazer um nome masculino, a aluna quer ser chamada pelo nome social feminino. A secretaria formou uma comissão para estudar o caso.

Combate à homofobia

A história de V. chegou à Seed pelas mãos da ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais). No relato ao órgão público, a estudante afirma que tenta junto com os pais convencer a escola a usar seu nome social há cerca de três meses. "Não nos documentos ou provas ou diploma, somente informalmente, e, se possível, fazer um acordo com os professores de me chamarem de V. na chamada, mesmo que no papel conste meu nome civil".

Apesar disso, prossegue o relato, a escola "não permite e diz que não é possível, pois pode ser acusada de estar me 'incentivando'". Segundo a estudante, o uso do nome masculino a faz sentir vulnerável a reações preconceituosas. "Me sinto vulnerável, já que eles me chamam
pelo meu antigo nome na frente de desconhecidos, causando desconforto. Possivelmente fico vulnerável a sofrer transfobia, já que poucos sabem de minha condição sem eu contar".

"Tivemos uma reunião com o fórum estadual de Educação nessa quarta (11). Formou-se uma comissão a qual serão convidados Ministério Público, Sinepe (Sindicato das Escolas Particulares do Paraná) e sindicatos de professores para debater o caso e criar uma norma clara no Conselho Estadual da Educação para adolescentes", informou Toni Reis, secretário de Educação da ABGLT.

Procurada pela reportagem, a Seed confirmou, via assessoria, que criou a comissão, mas que não poderia interferir no caso por se tratar de escola particular.

"Quando há concordância dos pais, como no caso de V., o nome social deve ser utilizado. Temos um governador que se chama Carlos Alberto (Richa, PSDB), mas todos os chamam de Beto (Richa). É no trato social que deve ser usado o nome", ele comparou.

"Boa vontade"

Nesta quinta (12), a secretária da escola onde estuda V., Suzana Puntel, disse ao UOL que iria encaminhar à Seed alguns documentos. "Eles é que definirão como devemos agir", disse.

"Não fizemos nada de errado. É preciso de uma papelada legal [que defina a adoção do nome social]. Nós aceitamos a opção dela, não vemos nenhum problema. Mas há uma questão legal, burocrática. Se ela está matriculada com o nome de batismo, como vai assinar uma prova com outro nome?", questionou Suzana.

"Queremos resolver o assunto da melhor forma possível", afirmou a secretária.

Em documento com data de 2009 enviado à reportagem pela Seed, lê-se que o Conselho Estadual de Educação aprovou "por unanimidade" parecer que tratou de caso semelhante, mas de aluno maior de 18 anos. "Somos favoráveis à inserção do nome social, além do nome civil, nos documentos internos do estabelecimento de ensino aos alunos travestis e transexuais maiores de 18 anos, que requeiram, por escrito, esta inserção".

Segundo Toni Reis, o único Estado brasileiro que tem regulamentação para o uso do nome social por estudantes menores de idade com aprovação dos pais, atualmente, é o Ceará.


Disponível em http://educacao.uol.com.br/noticias/2013/09/12/pr-aluna-transexual-recorre-ao-estado-para-usar-nome-social-na-escola.htm. Acesso em 16 set 2013.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A produção discursiva e normativa em torno do transexualismo: do verdadeiro sexo ao verdadeiro gênero

Rafaela Cyrino
Crítica e Sociedade
Revista de Cultura Política

Resumo: Este artigo realiza uma incursão histórico-epistemológica no aparato discursivo das primeiras formulações do conceito de gênero, com o objetivo de analisar as mudanças que se processaram na maneira de pensar e conceituar a diferença sexual no meio médico norte-americano entre os anos 1950/1970. Através de uma análise de conteúdo, centrada no discurso de médicos e na autobiografia de indivíduos transexuais, discute-se como a formulação do conceito de gênero representou uma ruptura com o determinismo biológico na explicação do nosso comportamento sexual, contribuindo com o processo de legitimação das cirurgias de mudança de sexo. Entretanto, este artigo mostra que, se o conceito de gênero contribuiu para o enfraquecimento da importância da biologia, seus fundamentos teórico-empíricos permaneceram atribuindo uma importância fundamental à diferença sexual. Deste modo, propõe-se que, através da teoria do gênero, houve uma mudança na tônica do discurso sobre a diferença sexual: do verdadeiro sexo descrito por Foucault (2001), supostamente cravado na verdade da biologia a ser decifrada por médicos especialistas, ao verdadeiro gênero, experiência subjetiva, verdade íntima que pertence ao individuo e que deve, de acordo com o discurso médico emergente, servir como parâmetro fundamental para confirmar ou até mesmo refutar o determinismo biológico.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Entrevista a Pierre Bourdieu: a transgressão gay

Catherine Portevin; Jean Philippe Pisanias
Telerama, n°2535, 12 de Agosto de 1998

Para desqualificar a homossexualidade é denunciada como uma prática contrária à natureza. Você ressaltar que a natureza não tem nada a ver com isso.

Certamente que não. Trata-se em principio de uma construção social e histórica: a divisão estreita entre heterossexuais e homossexuais se cristalizou recentemente, depois de 1945. Antes disso, os heterossexuais poderiam, eventualmente, ter práticas homossexuais. Mas, em nosso sistema simbólico, o contato sexual ativo segue  sendo o único em conformidade com a "natureza" do homem, já que a sexualidade passiva aparece como tipicamente feminino. A oposição ativo/passivo, penetrador/penetrou-a, identifica o contato sexual com uma lógica de dominação (o penetrador é o que domina). Deste modo, o homossexual se feminiza por participar de uma relação sexual só se aplica a uma mulher. Neste sentido, vai contra à natureza. Transgride esse limite que os romanos conheciam muito bem: se bem que a homossexualidade ativa com um escravo era tolerável, enquanto que a relação passiva era, evidentemente, monstruoso. Na realidade, "contra a natureza" significa apenas: contra a hierarquia social. Assim, enquanto o dominador é conduzido como tal, está tudo bem. Mas se você adotar as práticas pelas quais é provável tornar-se dominado, então nada está bem.

Nos casais homossexuais encontramos a mesma lógica. Se pode ser homossexual ativo, mas não passivo. Alguns homens e mulheres gays reproduzem no casal hierarquia masculino /feminino.

Em que condições, então, reconhecer os casais homossexuais como uma alternativa ao modelo dominante?

É muito complicado, porque essa reivindicação é ambígua: ao mesmo tempo o mais subversivo e mais conformista que se possa imaginar. É muito conformista, pois incentiva os homossexuais a entrar na ordem e agir como todo mundo, mas uma parte delas é hostil a esta normalização social. Não há outra padronização reconhecida do Estado. Um homem muito culto, sem o reconhecimento de escola, sempre vai questionar a sua cultura. Da mesma forma, um casal gay em união civil não é socialmente reconhecido, com plenitude, os direitos elementares (proteção social, herança, etc.) que o correspondem.

Como o casamento é essa coisa sagrada que conhecemos investido valores simbólicos extremamente vigorosos, o direito de reclamar, como homossexuais,  o direito à união pública reconhecida oficialmente, legalmente sancionada, dinamita todas as representações simbólicas consolidadas.

Por que você está comprometido com o movimento lésbico-gay?

O ponto de partida foi uma carta que recebi de um homossexual que trabalhava na Air France: "Se meus colegas heterossexuais recebem descontos quando saem de férias com seus companheiros – protestava - por que eu deveria pagar tarifa cheia, quando viajando com o meu parceiro?" Os homossexuais são, de fato, cidadãos de segundo nível. Então, quando alguém “joga” a ameaça do "comunitarismo" para rejeitar suas demandas, mal posso vê-lo mais do que apenas uma verdadeira má-fé, produto de uma relíquia católica, muitas vezes inconsciente e mal tomadas e permite uma forma de discriminação . Não há para mim equívoco algum. É como se os homossexuais fora negado frequentar a escola. É algo da mesma ordem.

A última frase do seu livro masculinos homossexuais dominação abertamente convida para se juntar "a vanguarda dos movimentos políticos científicos subversivos". O que isso significa?

O essencial era dizer: não se mantenham isolados. Dado por razões sociológicas, o homossexuais (pelo menos os seus líderes) têm um capital cultural significativo, podendo desempenhar um papel no trabalho de subversão simbólica essencial para o progresso social. “ Act up”* é prodigiosamente inventivo. Os movimentos sociais poderão se beneficiar deste inventividade, porque ainda que saibam como organizar eventos, e fazer banners e slogans e canções, de modo ritual, são, na verdade pouco criativos... Para ser criativo, você precisa possuir capital cultural . A ideia das petições foi inventada por intelectuais; quando os médicos se manifestam geralmente são imaginativos e; finalmente, porque havia imaginação entre os líderes do movimento dos desempregados na França, gente com forte capital cultural, estes se atreveram a ocupar locais simbólicos, como a Escola Normal Superior.

Há algo mais que a marcha do orgulho gay, o subversivo para os homossexuais iria participar nos movimentos sociais?

Exato. A parada do orgulho gay é subversivo na ordem simbólica pura. Mas isso não é suficiente. Os gays e os desempregados, por exemplo, não se comunicam facilmente uns com os outros. O movimento gay está organizado em torno de demandas que são consideradas privadas, e parece suspeito a uma tradição sindical que é construído contra o particular, o pessoal, o território privado da qual tenta desprender o militante.

1. Um sistema de organização social e política que reconhece a existência de comunidades étnicas, religiosa ou sexual, com direitos específicos, em princípio, o que contradiz a definição de um cidadão abstrato sobre a qual se funda a República Francesa.

2. Act up (Ação para desencadeia o poder, a ação para liberar o poder). Movimento radical de origem nova yorkino, cuja variante francesa também se ocupa dos direitos e demandas das minorias sexuais e, particularmente, as pessoas com HIV positivo. 
*Act up (Action to Unleash Power, acción para desatar el poder). Movimiento radical de origem neoyorkino, cuja variante francesa se ocupa também dos direitos e demandas das minorias sexuais e em particular das pessoas portadoras de HIV.


Disponível em http://www.cafecomsociologia.com/2013/08/entrevista-pierre-bourdieu-transgressao.html. Acesso em 16 set 2013.